Texto e fotos: Uirá Lourenço
No dia 15 de maio passei de bicicleta no final da Asa Norte. O Governo do Distrito Federal (GDF) havia liberado novas pistas na ponte do Bragueto no dia 11 de maio. O que mais chama atenção é a contradição entre o amplo espaço para o transporte motorizado (14 pistas e vários acessos) e a ausência total de infraestrutura para quem se desloca sem carro.
Faltam calçadas, ciclovias e pontos de travessia na região do Trevo de Triagem Norte (TTN). E os pontos de ônibus nas proximidades continuam precários, não passaram por qualquer reforma. Há um trecho de ciclovia não concluído, sobre a ponte, e os ciclistas precisam dividir espaço com os motoristas em alta velocidade. Não é à toa que os poucos ciclistas que passam pelo local têm perfil bem definido: jovens do sexo masculino. Precisa ter coragem e vigor físico para encarar o ambiente hostil! O recente atropelamento (5/5) de dois ciclistas na região demonstra o alto risco.
Gravei vídeo no final do Eixão Norte para mostrar o descaso com quem passa a pé, de bicicleta ou ônibus. No período de isolamento social o contraste é ainda mais evidente. As muitas pistas estão vazias e a distribuição do espaço viário é altamente injusta: o automóvel saiu ganhando e se perdeu a oportunidade de investir num sistema moderno de transporte, plural e integrado.
Ponto de ônibus sem reforma na região.
Pedestres e ciclistas em alto risco próximo à ponte do Bragueto.
– “Maior obra viária na história do DF”
Obras da Saída Norte. Fonte: Agência Brasília – 27/9/2019.
As obras no norte do Distrito Federal fazem parte do projeto grandioso e caro (custo inicial de cerca de R$ 207 milhões) para construir muitas pistas, túneis e viadutos. A ampliação viária da Saída Norte inclui o final da Asa Norte e o trajeto até Sobradinho. Os anúncios governamentais ao longo dos anos destacam os benefícios aos motoristas.
23/5/2018 (imagem à esquerda) 21/8/2019 (imagem à direita)
Anúncios do GDF ressaltam os viadutos e a fluidez motorizada na região norte.
É curioso notar que os projetos rodoviaristas de incentivo ao uso do carro são pluripartidários e se prolongam por governos de diferentes partidos. O TTN – que prefiro chamar de Terrível Trevo Norte – demonstra bem isso: a licitação do projeto ocorreu em 2009 (governo Arruda – DEM), o início das obras em 2014 (governo Agnelo – PT). As obras foram paralisadas e depois retomadas em 2016 no governo Rollemberg (PSB). No atual governo Ibaneis (MDB), as obras seguem em ritmo acelerado e praticamente concluídas (segundo notícia do GDF, 98% dos serviços foram realizados).
O governador Rollemberg, que tinha um programa de governo com capítulo dedicado à mobilidade, afirmou em 2017 que o TTN era a ‘maior obra viária desde Juscelino Kubitschek’, com 26 pontes, viadutos e acessos. E ainda acrescentou, orgulhoso: “Nenhum outro governo fez tantas pontes e viadutos”.
Melhorias no transporte coletivo já foram anunciadas, como o BRT Norte e o Terminal de Integração Multimodal Asa Norte (TAN), mas ficaram só na promessa. O sistema BRT daria agilidade aos ônibus e o novo terminal faria a integração entre linhas de ônibus e VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). O mapa do programa Circula Brasília, anunciado em 2016, mostra a rede de terminais e de linhas previstas de BRT, metrô e VLT.
Sistema integrado com BRT, metrô, VLT e terminais de integração. Fonte: Circula Brasília (2016).
– Mobilidade durante e após a Pandemia
Desde o início da pandemia se observam ações em diversas cidades do exterior para incentivar os deslocamentos a pé e por bicicleta. O objetivo é evitar aglomeração no transporte coletivo sem promover o caos urbano em razão do aumento no uso do carro.
As iniciativas incluem ampliação de calçadas e ciclovias, redução do limite de velocidade e maior restrição aos motoristas. Bogotá aumentou a quantidade de ciclofaixas. Na França, o governo pretende ampliar estacionamentos e vias para bicicletas, e o cidadão tem direito a vale de 50 euros para conserto da bicicleta. Em Londres, as ações incluem a conversão de pistas e estacionamentos em espaço para pedestres e ciclistas, além do aumento no valor do pedágio urbano (valor que os motoristas pagam para entrar na área central).
Criação de espaço para pedestres e ciclistas em Rancagua (Chile). Fonte: IFPedestrians/instagram, 20/5/2020.
Mais uma vez a capital federal ‘moderna’ perde o bonde da história, desperdiça a oportunidade de planejar e executar bons projetos que melhoram a mobilidade e a qualidade de vida. Ampliar pistas e construir viadutos para solucionar a mobilidade é como afrouxar o cinto para tratar a obesidade.
Considerando a entrega das novas pistas no ‘Terrível Trevo’ sem qualquer consideração com quem se desloca sem carro, e ainda as propostas anunciadas no início do ano (alargamentos de pistas e viadutos em todo o DF), o atual governo vai superar o antecessor na quantidade de túneis e viadutos inaugurados. Será que um dia a ficha vai cair e nossas autoridades vão se dar conta dos equívocos de pensar a cidade apenas para os carros?!
Última atualização: 26/5 às 20:30
O blog possui seção específica que reúne dados e imagens do projeto TTN: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/norte-do-df-ttn/
Imagens do TTN em maio/2020 (clique na imagem para conferir).
Vídeos gravados no final do Eixão Norte em 2020.
Carta Aberta às Autoridades no DF
Documento elaborado pela Rede Urbanidade, com sugestões para melhorar a mobilidade durante e após a pandemia.
Disponível no portal Mobilize: https://www.mobilize.org.br/noticias/12096/no-df-manifesto-sugere-mobilidade-humanizada-no-poscovid-19.html

