Proibiram as bicicletas?!

Desde pequeno sou fã da aviação. É o tipo de gosto e admiração que se passa dos pais para os filhos e isso se deu comigo. Gosto muito de todo e qualquer dispositivo que voe, de pipas a helicópteros. Este, entre outros propósitos, faz a iniciativa da Base Aérea com o evento Portões Abertos 2022, parecer fantástica. O evento vai acontecer no domingo, (18/9).

Despertando o gosto pela aviação no Joca.

Como o brasiliense está ávido por programas outdoor, seguramente desta vez, haverá um número expressivo de participantes, eu aposto em mais de 70 mil pessoas. Em 2017 o evento causou muitos problemas de trânsito. No dia do evento houve gente que chegou a perder voo comercial no aeroporto de Brasília, por conta do tumulto para chegar à Base Aérea. Em 2018 o evento foi ainda maior, contaram mais de 60 mil participantes. Se os números estiverem certos, e o DF tiver mesmo a fatídica proporção de um carro para cada 2 habitantes, teremos cerca de 30 mil veículos automotores rumando para a Base Aérea para admirar aqueles munidos de asas.

Eu já estava me organizando pra fazer um “bonde” e ir com o Joca e outras pessoas, levando as crias para o evento, que contará com estacionamento gratuito para carros, mas não vai ter um para bicicletas. “É proibida a entrada de bicicletas (não será permitida a entrada de bicicletas na área do evento)”, proclama o anúncio.

Imagem retirada do site do evento

Ué, por que será? De verdade não entendi. Sério, alguém pode explicar porque pode ir de carro mas não pode ir de bike? Ah… será que pode ir de bicicleta, mas não vai ter onde prender os camelos?

Imagem retirada do site do evento

A solução, que julgo bem simples e razoável, é que fizessem como se faz em eventos de triatlon, ou de encontros da massa crítica de ciclistas, onde de maneira provisória, com grades, destas que têm na Praça dos 3 Poderes, se resolve o problema. O ciclista sempre anda com seu cadeado pra prender sua magrela. Faltou foi consideração, reflexão e acolhimento. E sei, de fonte segura, que não foi por falta de aviso ou fazer saber aos organizadores do evento.

Imagem retirada da internet

Antes que alguém ache que é uma queixa sem sentido, o tal do mimimi, me antecipo e esclareço que se trata de uma reivindicação, de uma postulação urbanística — em urbanismo há uma importante proposição de igualdade democrática que diz que cidades boas são cidades que perseguem a finalidade de proporcionar encontros entre as pessoas, ao mesmo tempo que as coloca em contato com elementos da natureza como gramados, árvores e água corrente. Segundo ela, e eu acredito nela com grande convicção, se uma cidade oferecer igualdade de condições em espaços públicos para os seus vulneráveis, como crianças, idosos, portadores de necessidades especiais e também para os menos abonados, elas serão boas para todos os demais — PARA TODOS! Numa cidade democrática, todos os cidadãos são realmente iguais perante a lei.

A mobilidade urbana é, junto com a acessibilidade, uma das principais responsáveis pela conquista do Direito à Cidade, na medida em que assegura o acesso de todas as pessoas aos recursos disponíveis na estrutura urbana, bem como à infraestrutura básica estatal.

A Base Aérea está a 15km da rodoviária de Brasília, se o evento vai de 9h até as 17h, penso que tinham que aproveitar que o Eixão estará fechado para os carros, o que já diminui em quase 8km a distância. E é óbvio que muitas pessoas vão desejar se dirigir ao local do evento de bicicleta, principalmente se tiverem onde colocar as bikes. Daria para ir, curtir e voltar antes do Eixão reabrir. É frustrante e desanimador, sob vários pontos de vista (urbano, ambiental, salutar, lúdico e até social) ler algo assim: “Proibida a entrada de bicicletas” ou “O estacionamento será gratuito para veículos motorizados, não havendo estacionamento para bicicletas”. O contrário é que deveria ser estimulado.

Eventos como este não podem deixar de promover a igualdade viária, de incentivar a tão desejada mobilidade por bicicleta, que nasce do mesmo jeito, assim como o gosto de gostar de aviões, dos pais para os filhos. É uma pena que pessoas em posições chave, que decidem, que abrem portas e portões, não tenham ainda internalizado e absorvido o entendimento da frase que exorta o direito às cidades: “Por mais pessoas em mais bicicletas mais vezes“.

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VÍDEO

O vídeo mostra o trajeto de bicicleta no final da Asa Sul, incluindo a Estrada Parque Aeroporto (EPAR), que passou por obras de ampliação e construção de (trecho de) ciclovia.

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