Meu dia sem carro

Júlio Carneiro – médico, mestre em Ciências Médicas, ativista das Oficinas pelas Cidades Fraternas e membro da Rede Cidadã de Taguatinga

No dia 20 de setembro, na sede do MPDFT, aconteceu uma roda de conversas a partir da questão: como diminuir a dependência do automóvel e melhorar a mobilidade urbana? Uma iniciativa da Rede Urbanidade dentro da semana do Dia Mundial Sem Carro. Um paradoxo para a cidade feita para o carro…

Optei pelo ônibus para chegar ao local da reunião e confirmei o quanto é importante construir essa política pública a partir de quem trabalha ou usa o transporte público. Durante o trajeto, comentei com o cobrador do ônibus que estava indo a uma reunião sobre o uso do transporte público como opção ao carro e ele sabiamente deu o seu recado:

Algumas pessoas deixam de usar o ônibus por não conhecerem bem como funciona ou porque as informações são ruins. Ele se adiantou em explicar que o aplicativo “DF no Ponto” funciona razoavelmente, inclusive com a localização do GPS de cada veículo em tempo real. Na sua avaliação, as pessoas não usam mais por falta de incentivo ao uso do ônibus, ainda que em alguns momentos esse seja bem superior ao carro.

Eureka! O que custa ou o que falta para desenvolver um sistema de qualidade no aspecto da informação e comunicação?

E por que não melhorar a comunicação nos próprios pontos de ônibus? Em muitos pontos com abrigo já existem totens, mas com propaganda de ambos os lados. Por que não os usar para informar as linhas e o número dos ônibus, além de informações também sobre aquela região? Afinal, temos sempre visitantes entre nós.

Continuando a experiência de usar o transporte público, senti que o trajeto de casa até o ponto de ônibus foi mais perigoso e desconfortável que o próprio deslocamento de ônibus ao local do evento. As calçadas em minha quadra estão destruídas, sem o mínimo cuidado, com obstáculos, sem arborização e a faixa de pedestre está bem precária.

Calçadas em Taguatinga e no Eixo Monumental, na frente do Ministério Público (MPDFT).

Então vamos começar pelo que já conquistamos de maior mudança cultural de Brasília: o respeito pelas faixas de pedestre. Por que não valorizar essa conquista e manter as faixas impecáveis? E com um pouco mais de recursos, por que não melhorar o entorno dos pontos de ônibus, com arborização, iluminação etc.? Custa muito pouco priorizá-los, tornando os pontos de ônibus mais confortáveis e seguros, uma espécie de pit stop para o pedestre. Ainda, os modais de transporte coletivo (ônibus, metrô etc.) precisam estar adaptados e interligados a calçadas em condições seguras e confortáveis para caminhar ou a outros modais ativos como a bicicleta, o skate, os patins e o patinete.

Mesmo não conseguindo lugar para me sentar, pois o ônibus estava lotado, a viagem de ônibus foi rápida (vídeo) e agradável. Também para outros passageiros, que cochilavam, assistiam filme no celular, ou até liam livro; o que contrastava com a tensão dos motoristas que eu via pela janela, a maioria solitários em um mar de carros que quase não se movia.

Um dia sem carro, para mim, terminou com a sensação de que um pouco mais e venceremos a dependência absoluta do carro e o sofrimento cotidiano de muitos motoristas. Desenvolver o transporte coletivo é a única solução possível em uma cidade setorizada, centralizada e com longas distâncias a serem vencidas. Que venham outros dias sem carro.

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Nesta semana em que celebramos o Dia Mundial sem Carro (22/9) abrimos espaço para o relato do Júlio, que escolheu o transporte coletivo no trajeto até o debate promovido sobre carrodependência.

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