Texto e fotos: Uirá Lourenço
Nos últimos dias ocorreu uma série de atropelamentos e mortes no Distrito Federal. No dia 13 de março um homem de 33 anos foi atropelado ao descer de um carro e atravessar a EPTG (Estrada Parque Taguatinga). No dia 14 um homem de 40 anos foi atropelado ao tentar atravessar a EPIA (Estrada Parque Indústria e Abastecimento) Sul. No dia 15 uma mulher de 57 anos foi atropelada por um ônibus em Samambaia após se desequilibrar na calçada e cair na pista. Três mortes por atropelamento em três dias seguidos, em diferentes pontos do DF.
Muitas perguntas me vêm à mente. Quem eram essas pessoas? As mortes poderiam ter sido evitadas? Será que nossas autoridades tem noção do nível de insegurança aos pedestres? Ou, como diz a canção, consideram apenas mais um que ‘morreu na contramão, atrapalhando o tráfego’?
Eixão da Morte
O Eixão fez duas vítimas este mês (por enquanto). Um homem foi assassinado na passagem subterrânea da 102 Norte, no dia 5 de março; ontem (18/3) à noite um homem foi atropelado e morto no Eixão Sul, altura da quadra 106. Segundo as notícias, as duas vítimas estavam em situação de rua.
Pedestre atropelado e morto no Eixão Norte.
A pergunta que não quer calar: até quando teremos uma via expressa com limite de 80 km/h que dilacera a cidade de norte a sul, uma barreira quase intransponível aos sem-carro? Homens, mulheres, estudantes, trabalhadores, crianças e idosos que se arriscam diariamente para chegarem vivos ao outro lado.
Segundo estudo do Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF) em 20071, são mais de 80 mil travessias diariamente, em condições inseguras, ‘possibilitando assaltos e atos de violência’ (o próprio governo atestou a gravidade do problema há 17 anos!). Segundo pesquisa recente realizada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística (IPE/DF)2, pelo menos 274 pessoas atravessam o Eixão por cima diariamente na 116/216 Norte, altura do Setor Hospitalar. Centenas de pessoas sujeitas a alto risco sem qualquer apoio na travessia (faixa, semáforo ou passarela), e sem qualquer providência governamental para solucionar o problema.
As passagens subterrâneas são tenebrosas. As medidas paliativas recentes do GDF (reforma do revestimento e do piso) não mudaram o submundo do Eixão. O fato de não enxergar quem está do outro lado (as extremidades em L) aumenta a insegurança, especialmente à noite. A falta de acessibilidade e de policiamento agravam o problema. Não é à toa que muitas pessoas preferem atravessar por cima, entre os carros em alta velocidade.
Travessia no Eixão com carros a 80 km/h ou mais.
Não são apenas pedestres as vítimas do Eixão. Além dos atropelamentos, ocorrem com frequência colisões e engavetamentos. É fato que a alta velocidade aumenta significativamente o risco de lesões graves e mortes. Os dados do Departamento de Trânsito (Detran/DF) revelam quão perigoso é o Eixão: em apenas três anos (2017 a 2019) foram 296 feridos e 16 mortos, entre pedestres, ciclistas, condutores e passageiros.
Quem passa de carro também está em risco no Eixão da Morte. O noticiário revela algumas das vítimas motorizadas em decorrência de colisões e engavetamentos. Num dos casos recentes, um motorista de 45 anos morreu em colisão com poste na 204 Norte, em dezembro de 2023.
Vale lembrar que, ao contrário dos monumentos, o alto limite de velocidade – de 80 km/h – não é tombado em Brasília. A velocidade pode e deve ser reduzida/adequada para no máximo 60 km/h no Eixão e em outras vias com esse limite (por exemplo, L4, EPIA e via de acesso à ponte JK). Essa é uma medida básica adotada em várias cidades modernas para aumentar a segurança no trânsito. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda limite de até 50 km/h nas cidades.
O Ministério Público (MPDFT), com apoio da Rede Urbanidade, propôs Ação Civil Pública este mês, contra o GDF, com o objetivo de buscar solução segura de travessia para pedestres e ciclistas no Eixão. O MP pede ainda a redução do limite de velocidade para 60 km/h como forma de aumentar a segurança ao longo da via expressa. Um Manifesto de Apoio foi lançado em favor da Ação e para pedir um Eixão Seguro para todos – pedestres, ciclistas e motoristas (link de acesso para assinar o Manifesto).
Chega de tantas mortes! A pressa não vale uma vida. São vidas que importam, apesar de os atropelados muitas vezes aparecerem apenas como números frios nas estatísticas dos órgãos de trânsito e não terem sequer o nome divulgado nas notícias.
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1 Estudo de Segurança de Pedestres no Eixo Rodoviário, realizado pelo DER/DF.
2 Pesquisa ‘Travessias do Eixão’, realizada pelo IPE/DF com a colaboração da Universidade de Brasília (UnB) e da Associação Andar a Pé em 2021.
Notícias da violência nas pistas:
Homem desce de carro na EPTG e morre atropelado por ônibus da FAB
Homem morre atropelado ao tentar atravessar EPIA, no DF
Mulher se desequilibra, cai em via pública e é esmagada por ônibus no DF
Homem é atropelado, sofre parada cardíaca e morre no Eixão Sul
https://www.metropoles.com/distrito-federal/pedestre-e-morto-em-passagem-subterranea-da-asa-norte
Pedestre é morto em passagem subterrânea da Asa Norte
Veja imagens de forte batida no Eixão que destruiu carro e matou homem
VÍDEOS:


segurança para todos! Por uma cidade mais acessível, inclusiva e que nos dê segurança e qualidade de vida!
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Precisamos buscar uma cidade acessível e segura para todos, sensibilizar as autoridades para um outro modelo de cidade. Pensar nas pessoas e não só na fluidez motorizada. Esse é o caminho seguido nas cidades modernas de verdade ; )
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Eixão da Morte
Até quando não veremos cadáver estendido no asfalto?
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: Talvez quando todos se desloquem em SUVs
Reforma de revestimiento e piso só em algumas e já tão quase todas em muito mau estado
Máxima de : 60 ainda é muito pra zona urbana
Em toda Sevilha a máxima não pode passar de 50 em vias expressas
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É uma cena horrível. Até hoje lembro do dia em que passei e vi o corpo no Eixão, a mochila ao lado e o lençol cobrindo a pessoa. Outro dia passei de uber pelo Eixão e tudo parecia normal. É engraçado estar do ‘outro lado’, ter a visão limitada de dentro do carro e achar bom o fluxo constante e veloz, sem semáforos.
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Aqui no sudoeste, depois da construção do trevo na saída do Parque da Cidade, o trânsito piorou muito. Há filas intermináveis em vários momentos do dia. Muito mais do que antes havia.
Afinal, a obra milionária foi feita para beneficiar a quem????
A população está totalmente prejudicada.
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Até evito passar pelo TTSw (Terrível Trevo Sudoeste). Não só porque é ruim para quem está de bicicleta, mas também porque me traz lembrança, saudade, da área arborizada e agradável entre o Sudoeste e o Parque da Cidade. Hoje muito mais cinza e hostil. A frase atribuída a Mumford resume bem: alargar pistas para solucionar os congestionamentos é como afrouxar o cinto para tratar a obesidade.
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Mais uma vítima da brutalidade nas vias do DF esta semana. Pedestre em estado grave, vítima sem identificação na notícia. Epidemia de atropelamentos. Será que as autoridades se dão conta do problema?! https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2024/03/6823049-homem-e-atropelado-por-onibus-em-taguatinga-e-fica-em-estado-grave.html
Homem é atropelado por ônibus em Taguatinga e fica em estado grave
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