Sobre uma e duas rodas

Texto: João Paulo de Andrade Junior – “JP” (monociclista)

Parte 1: Que cara folgado!

Ainda hoje, passados quase cinco anos, lembro claramente quando vi um monociclo elétrico pela primeira vez. Era um dia de semana como outro qualquer, em Brasília, e lá estava eu dirigindo para o trabalho, possuído por uma pressa patológica, como sempre.

 Dia bonito, ensolarado, e eis que bem na minha frente, no meio da rua, me aparece um cara andando em pé numa rodinha, sem se segurar em nada.

Ao ver aquela figura andando com os carros, a primeira ideia que me veio foi:
“Que cara folgado!”. Eu era a personificação do Pateta ao volante, com suas garras e dentes afiados… “Como assim, um cara numa roda só andando na minha frente?”

Mas aí, eu percebi que aquela rodinha (que me pareceu tão pequena…) andava rápido. Na verdade, fiquei bem surpreso. Afinal, não me atrasou em nada. Era uma via do meu bairro, Lago Norte, de máxima de 40km/h. Fui seguindo a tal rodinha, observando o velocímetro, e entramos numa avenida, a principal do bairro, de máxima 60km/h.

Curioso, continuei seguindo aquele cara naquele treco esquisito. Paramos num sinal para pedestres. Ele à direita, eu na faixa central. Pensei: “Quando abrir, deixo essa cara pra trás!”. Acontece que, para minha surpresa, quando o sinal abriu, quem ficou pra trás fui eu… Só consegui alcança-lo depois de uns bons trezentos ou quatrocentos metros, o que me deixou extremamente surpreso, curioso e, para falar bem a verdade, meio frustrado: um verdadeiro Pateta. O piloto saiu da avenida e entrou numa ciclovia. Perdi o ET de vista.

Algumas horas depois, eu já estava mandando uma mensagem para o Fernando, brother do tênis de mesa, que meses antes tinha me falado: “JP, comecei a praticar um esporte que eu acho que você vai curtir muito: é o monociclo elétrico.” Fernando já andava há um tempo. Então, ninguém melhor para tirar minha dúvida. A mensagem foi mais ou menos assim: “Fernando, vi um cara metendo 60km/h num mono. É isso mesmo? Esse treco consegue parar numa velocidade destas?”.

Hoje, pensando bem, acho que Fernando não imaginava que eu iria gostar tanto, a ponto de abandonar completamente o tênis-de-mesa por conta do mono.

Parte 2: Antes do monociclo, a bike

Essa primeira visão foi em maio de 2021. Estávamos na Pandemia de covid-19. Em janeiro de 2019, eu perdi um grande amigo, Professor Guerrinha. Em setembro de 2020, perdi minha mãe, que quebrou o fêmur em razão de uma queda. Duas grandes referências para minha formação. Perdas irreparáveis.

Para tentar manter a sanidade mental no luto e no isolamento social, comecei a andar de bike com minha esposa, Nensinha.

Em vinte anos de relacionamento, sempre que eu falava em andar de bike, Nensinha reagia imediatamente: “Bike não!”. Compreensível. Na adolescência, ela sofrera dois acidentes relativamente graves de bicicleta.

Mas um dia, em plena pandemia, assistimos ao documentário “El límite infinito”, baseado no livro biográfico “La aventura de romper límites”, de Carlos Marcó. Belíssimo, conta a história do argentino Jean Maggi, que apesar das graves sequelas da poliomielite, luta para realizar seu sonho de escalar o Himalaia com sua bicicleta adaptada. Nensinha e uma de suas irmãs tiveram pólio quando crianças, nos anos 70, em situação semelhante à de Jean Maggi. Isso trouxe um significado a mais para nós. Assim que terminou o filme, olhei para ela e disse: “E se eu alugar uma bike de dois lugares, você anda comigo?” Para minha surpresa, ela concordou.

Próximo passo, encontrar uma bike de dois lugares, daquelas que os dois pedalam. Mais tarde, descobri que esse tipo de bicicleta se chama “tandem”. Fuçando no Youtube, cheguei ao vídeo de um cara andando com sua tandem no Eixão do Lazer, em Brasília, com uma deficiente visual no banco de trás. Sua felicidade com o vento no rosto era contagiante. Procura de cá, procura de lá, consegui o contato do dono da tandem com a “Bike Anjo DF”,  uma rede de pessoas que auxiliam quem quer aprender a andar e a usar a bicicleta nas suas mais diversas formas.

O nome dele era Uirá. Liguei, contei toda a história. Marcamos de ir na casa dele para fazer um teste. Ele morava na Asa Norte. Pertinho de casa. Como será que Nensinha se sentiria andando de bike depois de décadas? Superar um trauma é sempre difícil. Ela já tinha 50 anos, mas sempre foi muito ativa (desde que o esporte não envolvesse duas rodas…).

Chegamos no prédio do Uirá. Deu para vê-lo descendo, com muito trabalho, com aquela bike enorme pelas escadas. Não é fácil descer uma bike comprida como aquela pelos degraus e curvas de cada andar.

Nensinha e eu com as nossas máscaras descartáveis. Ele usava uma máscara enorme, com dois filtros laterais. Aquela máscara me lembrava as usadas em acidentes radioativos. Quando eu vi aquela cena, de um cara que não nos conhecia, no meio da pandemia, tendo um trabalhão para descer as escadas, com aquela máscara gigante, que demonstrava sua preocupação (mais que cabível) com a doença que matava tanta gente dia após dia, eu pensei: “Esse cara é gente boa. Olha o que ele tá fazendo por desconhecidos.”

Depois de uma rápida conversa, Nensinha e eu subimos na tandem. Falei para ela me avisar caso não estivesse se sentindo bem. Demos algumas voltas na quadra de esportes em frente ao prédio do Uirá, sempre conversando com ela, e notei que ela estava nervosa. Parei a bike e falei para ela não se preocupar. Tudo bem se ela quisesse desistir. Afinal, era só um teste. Ela se acalmou um pouco e aceitou tentar novamente. Desta vez, ficou menos tensa.

De volta para casa, tive a cara de pau de pedir para alugar a bicicleta do Uirá. Cinco anos depois, entendo melhor o peso desse pedido naquele momento: para ele e sua esposa Roni – que hoje são nossos queridos amigos – a bike não é só um lazer, mas o transporte principal de uma família que escolheu não ter carro por acreditar em uma mobilidade saudável e sustentável.

Andamos um mês juntos na tandem alugada, graças à gentileza daquela família. Os passeios foram ficando cada vez mais longos. Cinco, dez, vinte, trinta quilômetros. Resolvi comprar uma bike para Nensinha. Quando falei da ideia, ela disse:

– E se não der certo?

– Se não der certo, a gente vende, uai!

Durante a pandemia, evitamos as lojas físicas. Comprar uma bike online sem testar foi um verdadeiro desafio. Após pesquisar muito e medir minha esposa minuciosamente — já que o tamanho ideal da bike depende de variáveis como altura do ciclista e medida do cavalo () — finalmente escolhemos um modelo. Quando chegou, ela adorou. Ficamos felizes.

Depois, fui procurar vídeos de como ensinar adultos a andar de bike. Achei um com um roteiro que fazia muito sentido:

1 -Tirar os pedais e baixar o banco, para diminuir a sensação de insegurança.

2 – Andar na bike tipo Flintstones, com os pés no chão, como toda criança faz.

3 – Colocar um pedal apenas.

4 – Treinar em descidas suaves, se acostumar com os freios dianteiro e traseiro, ir subindo o banco gradativamente.

Eu sabia que a parte mais difícil era subir e descer da bike. Treinei muito isso com ela numa descida suave de um estacionamento ao lado de casa e na garagem coberta do condomínio. Outro foco era a frenagem. Primeiro, exclusivamente com o freio traseiro. Depois de bem condicionada, introduzi o freio dianteiro. Afinal, ninguém precisava de mais um acidente do tipo roda da frente derrapando numa frenagem, ou uma bike virando cambalhota…

Não vou mentir: houve pequenas intercorrências no aprendizado. Um dia o guidão da bike girou muito repentinamente (até hoje não sabemos muito bem como isso aconteceu)  e ela ficou com o dedão da mão direita doendo uns dias. Noutro incidente, ela colocou o pé no chão antes de parar totalmente e o pedal batel no tornozelo esquerdo.

Isso tudo só serviu para mostrar uma mulher de fibra, com cinquenta anos, se dispondo a superar traumas antigos e a aprender uma nova habilidade.

Deu certo: em uma semana, em meados de 2020, ela tava andando de bike. E assim, andamos de bike juntos por cerca de um ano. Foi quando vi aquele cara “folgado” andando no meio da rua de mono…

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JP é monociclistas desde 2021. Ele ainda está decidindo se esses capítulos serão os primeiros de um livro…

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