CARnificina: banalização da extrema violência nas pistas

Texto: Uirá Lourenço | Imagens geradas por IA (chatGPT)

São muitos casos de atropelamentos e mortes todo dia no país. Dezenas de mortes banais e evitáveis. Muitas vezes envolve um motorista em alta velocidade e/ou alcoolizado. Ou apenas distraído. Basta um descuido para dar ruim, para se ter uma nova vítima, uma família destroçada.

Ao andar pela cidade – a pé e de bicicleta – noto o nível de imprudência e distração dos motoristas. Além do excesso de velocidade e furo do sinal vermelho (quando não tem radar), uso de celular (vejo com frequência pessoas até teclando enquanto dirigem, sem contar os que seguram o celular em ligações), manobras bruscas de mudança de faixa e falta de acionar a seta ao fazer conversão.

Por um dever cidadão – de quem acompanha a mobilidade urbana – vejo as notícias sobre violência no trânsito. E me assusto com os comentários, com a falta de empatia e sensibilidade.

Fica a dúvida: nos acostumamos com a epidemia de mortes nas pistas? Por que se naturaliza tanto como se fossem meros acidentes, em vez de mortes evitáveis?

Num caso recente, em Taboão da Serra (SP), um casal foi atropelado e morto enquanto atravessava na faixa. Era de madrugada, com pouco movimento na pista, e o casal atravessou sem notar que vinha um carro em alta velocidade, com motorista alcoolizado. Na notícia com o vídeo da tragédia, muitas pessoas alegam que o casal avançou o sinal vermelho e não prestou atenção ao carro (num dos comentários, o sujeito diz que ‘parecem que estavam no jardim do éden passeando’). Será que não perceberam a alta velocidade do motorista e o ‘detalhe’ informado de que o motorista estava alcoolizado? Imaginando a reação de parentes do casal ao lerem um comentário desse.

Vale lembrar que o carro em si tem grande potencial destruidor, pode ser letal até mesmo em baixa velocidade. Em outro caso recente, em Manaus (AM), uma mulher foi atropelada enquanto atravessava uma rua calma (e aparentemente segura) dentro de condomínio. O vídeo mostra que a motorista que atropelou não estava em alta velocidade.

O roteiro costuma se repetir: motoristas que atropelam e fogem em seguida. Quando os assassinos são presos em flagrante, em alguns casos acabam sendo soltos após audiência de custódia.

Os casos que envolvem motoristas em carros de luxo, possantes, que tiram a vida de pessoas de menor renda (que se deslocavam cedo para o trabalho) escancaram a desigualdade. Entre os casos noticiados, menciono três. Em Brasília (abril/2025), Maria Núbia, de 46 anos, foi brutalmente atropelada e morta enquanto se deslocava de moto para o trabalho; o motorista conduzia um GWM Haval, tinha passado a madrugada num bar, e fugiu sem prestar socorro. Em junho de 2024, em rodovia de Goiás, Clenilton Correia, de 39 anos, vigilante, ia de moto para o trabalho e foi assassinado por motorista de 25 anos que dirigia um carro de luxo (Mercedes-Benz C 180). Em Goiânia (outubro/2020), um motorista em alta velocidade, num Mercedes-Benz C 180, atropelou e matou Nilma Borba, de 44 anos, diarista, que esperava no canteiro central para atravessar a rua; o motorista fugiu sem prestar socorro.

Infrações reiteradas

Os vídeos do Não Foi Acidente (@oficialnfa, no Instagram) revelam o número assustador de atropelamentos e mortes. Em cidades de norte a sul pedestres e ciclistas são assassinados sem dó. Motociclistas também viram alvo dos apressados e/ou bebuns. Esta semana, outro caso horroroso, em Teresina (PI). Edson Barbosa, de 47 anos, estava de moto, aguardava o semáforo abrir, quando foi violentamente atropelado, arremessado para o alto e assassinado pelo engenheiro Carlos Eduardo Marques, de 25 anos, que dirigia em alta velocidade e apresentava sinais de embriaguez. O vídeo mostra que outros dois motociclistas estavam ao lado, escaparam por pouco e agradecem a Deus pelo livramento.

Nem na calçada, na ciclovia ou no acostamento se está protegido. Três ciclistas foram atropelados e mortos no acostamento de rodovia em Três Coroas (RS), no dia 21 de fevereiro. O motorista estava alcoolizado. Uma mulher foi atropelada ao andar no acostamento da rodovia, no interior do Ceará, no dia 27 de fevereiro. O motorista fugiu e a pedestre ficou em estado grave. E são muitos os casos de pedestres atropelados na faixa de travessia.

Dá para exemplificar a barbárie nas pistas com vários outros casos pelo país: uma criança foi atropelada e morta na frente da escola no dia 2 de março, em Caratinga (MG); a motorista que perdeu o controle ainda feriu outras quatro pessoas. Lucrécia Santos, de 69 anos, foi atropelada no dia 28 de fevereiro ao andar na beira da pista em Planaltina (DF), ficou em estado grave e acabou morrendo (no vídeo parece que o motorista – que fugiu sem prestar socorro – sequer reduziu a velocidade no local sem calçada).

Presto uma homenagem às vítimas e às famílias. Homens e mulheres de todas as idades que se foram, assassinados nas ruas enquanto se deslocavam: Juarez Vieira (radialista do DF, que pedalava e foi atropelado e morto por motorista bebum em fevereiro); Clarissa Felipetti, Fernanda Barros e Isac Emanuel (ciclistas atropelados e mortos no RS, em fevereiro); Edson Dias (motociclista de 47 anos assassinado por motorista com sinais de embriaguez, em Teresina-PI, no dia 15 de março). Anas, Marias, Fernandos e Pedros, centenas e milhares de vítimas que se vão, em vão.

E ainda tem os sequelados, que sobrevivem à selvageria, mas ficam tetraplégicos ou com limitações diversas para o resto da vida. Certamente são centenas, milhares de mutilados todo ano.  

Culpa da vítima?

Os comentários em notícias veiculadas nas redes sociais revelam a falta de empatia no trânsito, a tentativa de culpar a vítima: o pedestre que atravessou fora da faixa; o ciclista que estava sem capacete (que nem é equipamento obrigatório); a senhora que atravessava muito devagar, sem prestar atenção aos carros.

Quem caminha ou pedala já deve ter ouvido algum motorista gritar: ‘Vai pra calçada!’, ‘Vai pra ciclovia!’. Eu já ouvi algumas vezes, mesmo em locais em que não há calçada ou ciclovia.

Vale lembrar que o motorista tem maior responsabilidade e todos devem zelar pelo mais vulnerável, o pedestre. O Código de Trânsito é claro:

Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Art. 29, § 2º, do Código de Trânsito Brasileiro

Qual o caminho: armadura ou mobilização?

Considerando a barbárie, o vale-tudo nas ruas, talvez a saída seja que pedestres e ciclistas coloquem armadura. Na falta de airbag, ciclistas com capacete e colete antichoque. Pedestres andando de capacete e colete refletivo.

O pedestre não é (ou não deveria ser) responsável pela própria segurança, ao contrário do que afirmou a gerente de ação educativa do Detran/DF em reportagem no final do ano passado. Na época, a representante do órgão disse que ‘o principal responsável pela segurança do pedestre é ele mesmo’ (nota de repúdio, assinada por entidades).

A segurança não pode depender de iniciativas individuais, heroicas, como do ciclista Naldo, que decidiu peitar os mautoristas que invadiam ciclofaixa em bairro de Belém (PA). No vídeo do início deste mês, que viralizou nas redes sociais, Naldo está parado na ciclofaixa, impedindo que os motoristas acessem o caminho dos ciclistas para escapar do congestionamento.

Precisamos de ações constantes do poder público, tanto na fiscalização, quanto na infraestrutura e na sensibilização dos motoristas. Reduzir limites de velocidade, redesenhar ruas para torná-las mais seguras (menos propensas ao excesso de velocidade), reforçar a fiscalização (eletrônica e com agentes de trânsito) e instalar faixas elevadas de travessia ajudariam na redução de atropelamentos e mortes.

E, claro, a mobilização da sociedade por cidades seguras, com menos imprudência e mais respeito. Temos bons exemplos para nos inspirar. A campanha Paz no Trânsito em Brasília, iniciada em 1996, que reuniu sociedade, imprensa e órgãos públicos em prol da segurança no trânsito e resultou no respeito à faixa de pedestre. A Holanda, que hoje é referência em mobilidade urbana, já teve números sangrentos no trânsito, inclusive com muitas mortes de crianças. A pressão dos moradores, que levavam cartazes e se deitavam nas ruas em protesto contra a violência no trânsito, foi fundamental para mudar o cenário sombrio.

A situação nas nossas cidades talvez melhore quando as autoridades – prefeitos, vereadores, deputados, senadores, juízes, ministros e diretores de órgãos de trânsito – trocarem os carros oficiais pela caminhada, bicicleta e ônibus nos deslocamentos diários. Certamente perceberão que, do outro lado do para-brisa, a realidade é bem diferente e hostil.

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