Texto e fotos: Uirá Lourenço
Estive na audiência pública para debater o Plano de Mobilidade do DF, no dia 28 de março, no auditório do DNIT. Foi bom ver maior participação da sociedade em relação a audiências anteriores, inclusive usuários do transporte coletivo.
A fala da Débora, após abrir para o público, indicava que não seria um evento dominado pelo blá-blá-blá governamental e o povo teria mais tempo de fala.
‘A gente passa o dia inteiro sendo moído dentro do transporte público, levando 4, 5 horas dentro do transporte público. E ainda tentando estudar pra ter uma vida um pouco melhor. A gente não consegue sentar pra ler um livro.
Não tem espaço dentro do ônibus. Não tem ônibus suficiente. A gente se reinventa pra poder chegar aos locais onde precisa estar’.
Débora – moradora de Valparaíso (GO)
Cheguei à audiência por volta de 9h20. Na L2 Sul, já próximo do local do evento, acelerei a bike para escapar de dois cães raivosos que estavam soltos, perto da pista. A falta de calçada bem na frente do DNIT é um bom demonstrativo da inacessibilidade.
Falta de calçada em frente ao DNIT.
Ao andar até o auditório, encontrei o secretário de mobilidade, Zeno Gonçalves, que já estava de saída. Ele comentou que iria a evento com a presença do governador. Depois vi notícia que se tratava da inauguração de mais um viaduto, na EPIG. Um fato bem simbólico no dia de discutir o futuro da mobilidade no DF.
A equipe do LabTrans (UFSC) fez um resumo do trabalho de atualização do Plano de Transporte (PDTU) de 2011. Foram realizadas pesquisas de campo, pesquisas origem-destino, contagem de tráfego e avaliação da caminhabilidade e da infraestrutura cicloviária.
Destacou-se a participação popular, com 4.828 contribuições recebidas, e se falou de novas propostas: anel viário de cargas e inclusão de dois novos cenários aos cinco previamente apresentados. O cenário 6 com custo baixo e facilidade de implantação, com faixas exclusivas; o cenário 7, com mais investimentos no transporte por trilhos, VLT e metrô (criação da linha 2). Em seguida se falou da minuta do projeto de lei, que ficou disponível para consulta em portal específico na internet.
Audiência Pública sobre o Plano de Mobilidade.
Carrocracia e Viadutos
Na minha fala destaquei números oficiais que revelam a alta dependência do carro, os inúmeros projetos e obras voltados ao automóvel. A frota motorizada no DF passa de 2 milhões e 100 mil, segundo o Departamento de Trânsito (Detran/DF), e dados da Pesquisa por Amostra de Domicílios (PDAD/2021) sobre os deslocamentos casa-trabalho revelam o altíssimo uso do automóvel: 97,5% no Lago Sul, 88,4% no Sudoeste/Octogonal e 86,9% no Lago Norte.
Sobre as obras viárias, o Governo do Distrito Federal (GDF) costuma anunciar os ‘investimentos’ (gastos, na verdade, por se tratar de obras ineficazes que incentivam o uso do carro) e a quantidade de motoristas beneficiados. Destaco algumas das obras grandiosas:
| Obra | Custo | Motoristas beneficiados |
| Túnel de Taguatinga | R$ 275 milhões | Mais de 137 mil |
| Viaduto do Jardim Botânico | R$ 33,5 milhões | 50 mil |
| Viaduto do Sudoeste/Parque da Cidade | R$ 27 milhões | 50 mil |
| Viaduto do Recanto das Emas | R$ 30,9 milhões | 60 mil |
| Viaduto do Itapoã/Paranoá | R$ 95 milhões | 60 mil |
Inauguração do Viaduto do Itapoã/Paranoá, com a presença do governador. Agência Brasília, Abril/2024.
Segundo notícia do GDF, de setembro/2025, foram inaugurados ‘mais de 20 viadutos em diferentes regiões, reforçando a fluidez viária’. Na mesma notícia, o governo ressalta que ‘trabalha para erguer mais um viaduto, no Noroeste’, com custo de R$ 29,6 milhões e previsão de beneficiar 100 mil motoristas.
Há outros projetos grandiosos no estilo TTN (Terrível Trevo Norte, conjunto de pistas e acessos no final do Eixão). Além do viaduto no Noroeste (bairro ‘ecológico’), o governo pretende construir duas novas pontes no Lago Sul, ao custo de R$ 1,7 bilhão.
Situação do Transporte Coletivo
É grande o contraste entre as grandes obras de túneis e viadutos e o precário transporte coletivo. Eis alguns dados:
– o DF tem apenas 78 km de faixas exclusivas de ônibus (sem contar o corredor do BRT Sul).
– o metrô do DF tem só 42 km de extensão.
– o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), prometido desde 2009 (governo Arruda), nunca saiu do papel.
– o BRT Norte e o Terminal da Asa Norte (TAN) também não saíram do papel, apesar da obra grandiosa e cara da Saída Norte, concluída no atual governo (custo de R$ 220 milhões).
– o trem regional entre o DF e Goiás descarrilhou antes de entrar em operação (em 2019, o governador Ibaneis fez viagem-teste no percurso).
Muitas pistas no complexo viário da Saída Norte, sem o prometido BRT.
Um fato no ano passado evidencia a visão carrocrata do governo atual. Implantou-se uma faixa exclusiva para os ônibus na região do Jardim Botânico, importante medida para priorizar e dar agilidade aos usuários do transporte coletivo. No entanto, a faixa exclusiva durou só quatro dias. Após pressão de motoristas, o GDF recuou e eliminou a faixa exclusiva no dia 22 de setembro (Dia Mundial sem Carro)!
Calçadas e Ciclovias
E o que dizer das condições para caminhar e pedalar? O Distrito Federal ainda tem muitos locais sem calçada, mesmo na área central de Brasília. Os caminhos de rato (linhas de desejo) nos gramados destacam o percurso de pedestres e ciclistas. A falta de rampas é a regra, em vez de exceção. E temos um problema crônico de falta de manutenção e iluminação nas calçadas e ciclovias.
Ausência de calçada no Setor Terminal Norte.
Ausência de ciclovia no início da Asa Norte.
Outro problema comum são as calçadas e canteiros invadidos por motoristas, que se transformam em estacionamento. Para citar alguns exemplos diários, o Setor Hospitalar e o Setor Médico-Hospitalar (Asa Norte), as calçadas da W3 (Norte e Sul).
Nem mesmo os pilotis de prédios são poupados (pelo projeto tombado da cidade, deveriam ser de livre acesso aos caminhantes). Na Asa Sul há blocos residenciais com pilotis transformados em estacionamento dos moradores.
As travessias de alto risco, agravadas pelo alto limite de velocidade nas vias, são bem conhecidas. Em locais como o Terrível Trevo Norte, a via da ponte JK e mesmo nos arredores da rodoviária do Plano Piloto, o lema é correr pra não morrer. E ainda as emblemáticas passagens subterrâneas do Eixão, fétidas e escuras.


Calçadas novas invadidas na W3 Norte; carros no pilotis, na Asa Sul.
Pedestres na travessia do Terrível Trevo Norte (TTN).
Segundo o governo local, o DF tem mais de 700 km de ciclovias e ciclofaixas. Apesar de o governo se vangloriar da quantidade de ciclovias (atrás apenas de São Paulo), quem se desloca de bicicleta sabe dos desafios, que incluem falta de conexão entre caminhos, piso deteriorado e escuridão.
É emblemático que até hoje nosso principal terminal de transporte, a rodoviária do Plano Piloto, não tenha bicicletário nem ciclovias internas.
Mudança de modelo: Cidade para Pessoas
Estrada Parque Taguatinga (EPTG), no final do dia.
É urgente reverter o modelo de cidade. Na década de 60 do século passado se justificava pensar a cidade para os carros. No século XXI, não mais. A capital federal não comporta tantos carros, o DF não precisa de mais túneis, pontes e viadutos. Pistas e estacionamentos abarrotados, viadutos grandiosos e vias expressas são um sinal claro do fracasso na mobilidade.
Ampliar pistas para resolver congestionamentos é como afrouxar o cinto para tratar a obesidade. Lewis Mumford (historiador e urbanista, 1955)
As cidades mundo afora se reinventam, restringem a circulação de carros, transformam estacionamentos em praças e derrubam viadutos; ampliam calçadas, criam rede de ciclovias, linhas de VLT e expandem o metrô. Amsterdã, Copenhague, Nova York e Paris têm tido sucesso.
Amsterdã: exemplo de cidade para as pessoas.
Venho acompanhando a elaboração do Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Sustentável (PDTM na minuta de projeto de lei, que deveria ser PDTMS para destacar a sustentabilidade). Participei de audiências públicas e reuniões temáticas virtuais, registrei sugestões de alteração no portal e enviei contribuições por e-mail (onze, por enquanto). Entre as propostas enviadas, estão: necessidade de sensibilizar gestores públicos para o novo modelo de cidade que o Plano propõe; importância da arborização e conforto térmico.
Se não houver trabalho de sensibilização interna (dentro do próprio governo), há grande risco de termos mais um plano bem-intencionado, bonito no papel, mas sem implementação efetiva. Boas propostas da Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob/DF) – como ruas completas, zonas 30 e redução de velocidade – podem ser atropeladas por órgãos com tradição carrocêntrica, incluindo Departamento de Estradas de Rodagem (DER/DF) e Secretaria de Obras.
Quanto à arborização, é lamentável a devastação promovida pelas obras rodoviaristas. Árvores frondosas são cortadas em nome da fluidez motorizada. A Cidade Parque e as Estradas Parque estão cada vez menos verdes. Caminhar e pedalar pelas vias áridas, como a do Setor Policial e a EPIG, é um tanto desagradável.
Agora é torcer para que mais pessoas se engajem na busca de uma cidade humanizada e segura, que as autoridades e os gestores públicos se convençam que o modelo rodoviarista voltado ao carro não cabe mais. A cidade para as pessoas é muito melhor: dinâmica, agradável, acessível e atrativa para moradores e turistas.
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O plano de transporte vigente (PDTU/DF) foi instituído pela Lei Distrital n° 4.566/2011 e tem a previsão de ser atualizado em 10 anos. O trabalho de atualização é coordenado pela Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob/DF), que contratou em 2024 o Laboratório de Transportes e Logística (LabTrans), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Este ano foram realizadas duas audiências públicas sobre o novo Plano de Transporte (presenciais, com transmissão virtual): no dia 24 de janeiro, no auditório da Câmara Legislativa (CLDF); no dia 28 de março, no auditório do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
A quarta audiência, em 28 de março, estava programada para ser a última. Após recomendação assinada pelo promotor Dênio Augusto, promotor do Ministério Público (MPDFT) e coordenador da Rede Urbanidade, ainda deve ser realizada mais uma audiência pública, após a elaboração do relatório final pelo LabTrans e antes do envio da minuta de projeto de lei à CLDF.
VÍDEOS:
Alguns vídeos que revelam graves problemas de imobilidade e insegurança no trânsito.









