Um casal na rua, um retrovisor, uma bala

Texto: Uirá Lourenço

Esse texto é por Thawanna, brutalmente assassinada por outra mulher, policial.

Era madrugada numa rua de Cidade Tiradentes, bairro a 35 km do centro de São Paulo. Thawanna e seu companheiro, Luciano, andavam sem preocupação pela rua. Até aparecer uma viatura da polícia militar, com dois agentes do Estado, que deveriam proteger a população.

O retrovisor esquerdo do carro esbarra em Luciano. Apesar de não haver dano, o policial que dirigia resolve dar marcha ré e parar. O vídeo da câmera no policial registra quando ele pergunta: ‘Rua é lugar para você estar andando, c#*#* [palavrão]?’

Ele e a companheira não poderiam andar na rua?! A violência começa com o quase atropelamento e continua com o questionamento sobre o andar na rua e o uso de palavrão.

Thawanna se aproxima e fala: ‘Com todo o respeito, vocês que bateram em nós.’

A policial desce do carro e vai em direção da moça. Não dá pra ver detalhes da abordagem, a soldado Yasmin está sem câmera corporal e as imagens são apenas do policial. De repente, ouve-se o disparo. O policial pergunta se ela atirou e ela afirma que sim, que atirou após Thawanna ter lhe dado um tapa no rosto.

 O suposto tapa justificaria o tiro? Outra reação, menos grave, não teria sido suficiente e mais adequada?

As cenas que se seguem são angustiantes. A moça fica caída, os bombeiros demoram a chegar, mais viaturas chegam. Em outro vídeo (de morador) pode-se ver o extremo da violência: um policial que chegou depois aponta a arma (que parece ser um fuzil) para Thawanna no chão, que agonizava sem socorro.

Vi notícias sobre o caso. Senti necessidade de escrever. Acompanho a (i)mobilidade nas cidades e a violência no trânsito. Não se trata apenas de mais um caso de violência policial e (in)segurança pública. Trata-se de direito à cidade e, ao que tudo indica, de preconceito/racismo.

Vale lembrar que muitos bairros periféricos, de baixa renda, carecem de itens básicos como calçadas, praças, áreas verdes e saneamento. Aquela rua de Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, certamente não é um primor em acessibilidade e a rua é (ou deveria ser) de todos, inclusive dos pedestres.

Ao contrário do que estabelece o Código de Trânsito (motorizado protege o não motorizado e todos zelam pelo pedestre), muitos motoristas aceleram de forma desmedida e ameaçam pedestres e ciclistas. Parece ter sido o caso do policial que dirigia e reclamou de o casal andar na rua.

Vejo preconceito por se tratar de abordagem truculenta (desrespeitosa, que começa com palavrão) num bairro periférico, contra uma pessoa negra (Luciano, companheiro de Thawanna). Se a abordagem ocorresse nos Jardins, bairro de alta renda, com um cidadão branco, muito possivelmente seria diferente. Na verdade, nem teria havido abordagem. Nos meus 47 anos de existência, com pele clara, jamais fui abordado por um policial.

Thawanna agonizou por mais de 30 minutos e não resistiu. Seu marido foi impedido de se aproximar dela e de acompanhá-la até o hospital. Na delegacia, Luciano foi autuado pelo crime de resistência. A violência continua. Perdeu sua companheira, não pôde estar próximo nos momentos finais e ainda responderá por crime.

O desfecho poderia ter sido bem diferente. Tudo começou por motivo banal e o retrovisor da viatura sequer foi danificado. Algumas perguntas que ficam:

– A abordagem desrespeitosa do policial, com palavrão, faz parte do protocolo?

– A câmera corporal não deveria ser usada pelos dois policiais em serviço?

– Se a policial Yasmin usasse câmera corporal, teria sido mais cautelosa na abordagem?

– O suposto tapa justifica a reação da policial (tiro no peito)?

– A policial não deveria ter tomado outra atitude: distanciar-se de Thawanna, pedir auxílio do parceiro, dar tiro de alerta (para o alto) ou usar meio não letal (spray de pimenta ou arma de choque)?

– Os policiais não estão aptos a realizar primeiros socorros até a chegada dos bombeiros?

Meus pêsames a Luciano, à família, aos amigos e, em especial, aos cinco filhos de Thawanna.

Espero que esse triste caso sirva para refletirmos sobre violência nas ruas, sobre preconceito, abordagem policial e o direito à cidade.

Tivemos mais uma briga de trânsito, entre tantas outras, com morte. Mas envolveu agentes do Estado, que poderiam e deveriam ter agido com mais prudência. Que poderiam, inclusive, ter deixado pra lá, ter seguido caminho sem questionar o casal.

Thawanna ainda estaria aqui. E a carreira dos policiais não seria abalada, não teriam que responder a inquéritos.

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