Pedal exploratório até Taguatinga (EPTG)

Texto e fotos: Uirá Lourenço

No dia 23 de agosto fiz um pedal mais longo, pela Estrada Parque Taguatinga (EPTG). Já fazia algum tempo que não passava por lá1 e estava curioso para observar a (i)mobilidade após a entrega do túnel de Taguatinga e da terceira saída de Águas Claras.

Nos 56 km de pedal constatei o caos graças à forte política rodoviarista de incentivo ao automóvel. Na altura do bairro Sudoeste, o viaduto em obras é um grande obstáculo. A região – antes agradável e arborizada – está estéril e hostil. Um carcará se hidratava numa poça lamacenta no canteiro de obras.

Na entrada do bairro Sudoeste, aridez causada pelo trevo rodoviário em obras.

Segui caminho e o mar de carros se intensificava até chegar ao auge na EPTG. Do alto da passarela, o congestionamento interminável. Parece que agora não há mais horário de pico: de manhã estava tudo parado (em diferentes pontos) e no início da tarde também. Apenas alguns ônibus em meio a tantos carros.

Enquanto isso, a ciclovia vazia. Devo ter visto ou cruzado com, no máximo, 20 ciclistas. Em geral, homens jovens. Chamou atenção uma mulher, guerreira, pedalando junto aos carros. Ponto fora da curva na preponderância masculina diante dos obstáculos. Em alguns trechos a ciclovia termina de repente, inclusive na chegada à Taguatinga. Para piorar, no túnel batizado de Rei Pelé (que prefiro chamar Túnel Rei Automóvel2) é expressamente proibido caminhar e pedalar.

Mar de Carros na EPTG.

Obstáculos no caminho: término da ciclovia e proibição expressa no túnel.

Após passar pelo caminho de rato no final da EPTG e atravessar correndo, próximo à entrada do túnel, me deparo com um ambiente árido e hostil. Cadê o prometido boulevard sobre o túnel?! Faltam banquinhos, falta sombra e sobra área impermeabilizada. Ao meio-dia o desconforto térmico era grande3.    

Encontrei na Praça do Relógio o Júlio, Eloy e Felipe, moradores da região e membros da Rede Cidadã de Taguatinga. Eles me mostraram outro problema no pseudo-boulevard (com tanto concreto e sem local de lazer e convivência não dá para chamar de boulevard): a esquina da morte. Um cruzamento mal sinalizado e que, apesar do grande movimento de pedestres e ciclistas, muitos motoristas passam bem rápido. O Sr. Eloy comentou que já houve, pelo menos, dois atropelamentos recentes (vídeo divulgado no Instagram).

Cenas de Taguatinga: ambiente árido no pseudo-boulevard e esquina da morte.

Fiz uma pausa para hidratar e segui de volta pela EPTG. Novo perrengue para alcançar a ciclovia, que continuava vazia. De repente me deparo com essa cena emblemática: placa indicando a Cidade do Automóvel e ao fundo o anúncio do GDF enaltecendo o Túnel de Taguatinga.

Na EPTG, cenário automotivo bem evidente.

A ciclovia termina mais uma vez, próximo do acesso à EPIA. Me preparo para enfrentar o mar de carros parados – EPTG, EPIA e EPIG com fila interminável de carros e caminhões. Poucos ônibus no horizonte.

No trajeto de volta, caos automotivo na EPTG, EPIA e início da EPIG.

Decidi seguir pela via do Setor Policial, em obras. A placa informa tratar-se da construção de BRT (sistema rápido por ônibus). Mas ali é uma das poucas vias que tem (ou tinha) faixa exclusiva de ônibus. Será que precisava de uma grande obra? Sigo pelo asfalto tórrido, sem sombra. Mais à frente outra cena lamentável: várias árvores frondosas marcadas com ‘X’. Possivelmente o canteiro arborizado vai virar pista e intensificar a ilha de calor.

Ainda no Setor Policial, próximo à W3 Sul, continuo caminho pelo canteiro e vejo paineiras sendo extirpadas, arrancadas pela raiz. Assim como o pseudo-boulevard de Taguatinga, o pseudo-BRT serve para justificar mais uma ampliação de via, mais pistas para a frota crescente de automóvel.

Paineiras marcadas e suprimidas no Setor Policial.

Apesar dos anúncios do governo que exaltam os motoristas e das grandes obras (túnel de Taguatinga, terceira saída de Águas Claras e viaduto do Sudoeste, entre outras), pretendo continuar sem carro. Será que um dia vou me render?!

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1 Morei em Águas Claras por dois anos, acompanhei as obras de ampliação da EPTG (curiosamente chamada de Linha Verde) e fiz muitos registros – fotos e vídeos.

2 Escrevi sobre o túnel no blog: https://brasiliaparapessoas.org/2023/06/27/tunel-rei-automovel/

3 Confirmei depois a alta temperatura. Segundo noticiado, foi o dia mais quente do ano no DF. 

Álbum completo com fotos do Pedal Exploratório:

IMG_2311_23-08-2023_EPIA_Carros_caos_edit

O vídeo mostra os detalhes do trajeto de bicicleta até Taguatinga.

6 comentários sobre “Pedal exploratório até Taguatinga (EPTG)

  1. Excelentes registros e críticas de uma realidade que me faz chorar, Quando Brasília vai evoluir com a mobilidade de forma mais humana e não violenta para as pessoas que se deslocam de forma ativa por opção ou falta de escolha? As estradas parques viraram so concretos, velocidades e desumanidade. A conta chega, quer pelos congestionamentos apesar das novas pistas, túneis e viadutos, quer pelos sinistros graves que matam e sequelam pessoas, quer pelo aprisionamento das pessoas em suas casas sem espaço seguro e agradável de viver, hoje estão áridos, quentes e sem sombras … o modelo Rodoviarista de Brasília continua, agora derrubando as árvores que foram plantadas no passado, cresceram, encantam, sombreiam, refrescam e trazem vidas para o convívio da cidade.

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    • É bem triste mesmo, Renata. As autoridades, os gestores responsáveis pela mobilidade não se dão conta do atraso desse modelo rodoviarista. Muitos certamente conhecem a realidade no exterior, apreciam viajar, caminhar, pedalar e usar ônibus e metrô na Europa. Ao retornar, só conseguem pensar o automóvel como ‘solução’ para os deslocamentos.
      A conta já chegou. Frota automotiva crescente, congestionamentos intermináveis, estresse, menos áreas verdes e mais ilhas de calor.

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  2. Realmente é um dilema. Se você se render, Brasília também perde pois é sinal que o caos venceu. Um dia você compartilhou um trabalho seu, mostrando as vias num crescente de carros mesmo expandindo. Será que não pensam que facilitando para o carro, isso se torna insolúvel? Uma Rida de Sansara? Quantos não se rendem todos os dias? Claro que o Governo não pensa na maioria que são pedestres e ciclistas. Sabem que quem enche os cofres do Governo é a tal da Indústria Automobilística. Até um dia atropelarem um dos seus.

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    • Obrigado pelo comentário, Nádia.
      Acho que só as autoridades não se deram conta de que o caos vem se instalando, mesmo com as grandes obras para ‘solucionar’. Os congestionamentos crescem, assim como o nível de estresse e impaciência. As brigas no trânsito, inclusive com perseguição e morte, revelam outra face do problema.
      Muitos acabam se rendendo. Conheço pessoas que abdicaram da bike e migraram para a moto ou carro. Nas cidades modernas, incentiva-se o movimento contrário – do carro para a mobilidade ativa e para o transporte coletivo.

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