O mamão da discórdia

Uirá Lourenço

O ocorrido de ontem vale um relato. Era pra ser apenas uma caminhada pra tomar sol e pegar mamão verde para o doce que a sogra queria fazer.

Arrumamos uma vara emprestada para ajudar na colheita e caminhamos entre os becos arborizados e floridos da Asa Norte. Começamos colhendo jenipapo e pinha. Andamos mais, sem pressa, conversando e apreciando as muitas flores, as mangueiras, os pés de abacate e as barrigudas (paineiras).

Eis que avistamos um mamoeiro com muitos frutos verdes de bom tamanho. Nos aproximamos, eu, o filho mais velho e a sogra. O pé carregado fica no canteiro bem em frente a uma casa de esquina.

De repente, o portão da casa se abre e um homem esbraveja pra mim: ‘você plantou esse mamão, você cuida dele?’. Sem reação de início, fiquei olhando e ouvindo. E ele continuava: ‘você está furtando coisa nossa, você está cometendo crime’.  

Depois do susto inicial, comecei a falar. Dei bom dia ao ser raivoso e disse que sequer havia pegado algum mamão, só tínhamos olhado para o pé. Ele retrucava ainda mais raivoso, dizendo que o mamoeiro era dele e que estava tudo filmado. Pedi a ele pra falar com calma e comentei que a planta estava em área pública. E a ira parecia só aumentar, dizia que, se eu pegasse, iria registrar BO e levar a filmagem.

Aleguei que ele estava errado e que eu poderia pegar as frutas. Mas, atendendo a pedidos da sogra (idosa com mais de 70 anos, nervosa com a situação), decidi sair e buscar mamão em outro canto. Enquanto saíamos, ele continuava esbravejando (parecia espumar pela boca), dizia que eu não ia pegar ‘a porra do mamão’ e que eu ia ficar sem almoço, em tom de provocação.

Voltei com a vara em mãos, decidido a pegar um ou dois mamões. Ao me aproximar da planta, o portão se abre de novo. Agora era a vez da esposa destilar toda a ira, aos berros e em tom ameaçador: ‘você não vai tirar mamão, você não plantou, não cuidou.’ E continuava: ‘você está cometendo crime, está na lei. Eu vou lá na delegacia levar as imagens’. Ela insistia que tinha lei que me enquadrava como criminoso. Eu e meu filho perguntamos qual era a lei, mas ela não dizia, limitou-se a dizer que era pra ver na internet.

Subitamente a mulher, que mais parecia um pitbull, muda o alvo e começa a gritar para alguém que via a cena da janela de um prédio: ‘sai da janela, para de ficar olhando’, entre outras frases agressivas.

Não tardou para ela voltar a artilharia para nós. Insistia no crime, que iria dar queixa e fazer BO. Eu disse a ela que registrasse e que poderia levar pra mim a denúncia, no meu endereço. Ao dizer que morava em quadra próxima, ela teve outro ataque de fúria: que eu não tinha nada que sair da minha quadra para ‘infernizar’ (nesses termos) a quadra dela.

Decidimos sair, deixar o ambiente pesado sem levar mamão. O homem raivoso continuava provocando de dentro da casa: lamentava que eu ia ficar sem almoço por sair sem mamão.

Continuamos a caminhada. Enquanto procurávamos um pé de mamão fora do campo minado, comentávamos a situação bizarra, surreal.

Por fim, já perto de casa, fomos brindados com outro mamoeiro generoso. Pegamos dois mamões de bom tamanho para preparar o doce.

Além da história inusitada pra contar, tiro algumas lições de ontem: há pessoas nervosas em nível patológico e não é à toa que se veem tantas brigas, agressões e até morte por motivos fúteis (é preciso ter cuidado); as áreas verdes públicas são apropriadas sem pudor (este é mais um exemplo entre tantos outros – orla do lago Paranoá, canteiros transformados em estacionamentos,…); gentileza gera (ou poderia gerar) gentileza.

Sobre esse último ponto, o desenrolar teria sido bem diferente se o morador supostamente dono do mamoeiro tivesse se aproximado de forma amistosa (ou pelo menos respeitosa, serena) e explicasse que ele e a esposa haviam plantado, cuidavam da planta e preferiam que não se tirasse fruto.

Eu teria conversado de boa e me retirado, talvez até rolasse uma prosa sobre plantio e sobre a variedade de frutas nos canteiros de Brasília. Pensando bem, foi bom não ter trazido mamão da frente da casa. Era capaz de o doce causar indigestão. Com o nível de hostilidade do casal pitbull e o maior armamento da população, talvez eu até levasse um tiro pelas costas ao colher os frutos.

8 comentários sobre “O mamão da discórdia

  1. Uirá, que cena! Aqui em casa nasceu um mamoeiro que desafia a física… foi plantado sem planejamento e deu muitos frutos e ainda está dando… hehehe. Assim como ele desafia a física, esse casal desafia a humanidade. Como se sustentar diante de tanta misantropia? Você foi paciente e recuou, bom começo; mas temos que ir em frente com o “Brasília para pessoas”. Isso nos desafia, mas vamos conseguir. E se a minha caçula, “dona do mamoeiro” permitir, venha buscar mamões.

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    • Prezado Júlio, obrigado pelo comentário. Precisamos de mais civilidade, mais gentileza. Já plantei aqui por perto de onde moro, tem abacate e jabuticaba. Outras a gente adotou (pé de acerola e pitanga) e rega com frequência. Não fico monitorando e controlando quem pode ou não pegar as frutas. Que as pessoas possam plantar e colher mais. Muitas vezes apenas um bom dia já basta para mudar o dia ; )

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    • Estamos num nível de civilidade que beira a barbárie. O mais incrível é que muitas mulheres, em geral mais sensíveis, entraram nessa onda de nervosismo e intolerância com o próximo. Espero não entrar numa situação dessa novamente. Mas, se rolar, vazo rapidinho.. ainda peço desculpas por infernizar pessoas de bem!!

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  2. Que cena, Uira’! O casal deveria plantar em ‘área publica para alimentar um pouco dos 64 milhoes de pessoas em insegurança alimentar.
    A popula’c~ao est’a doente, uns da mente, outros de fome.

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    • Paulo Roberto, as áreas públicas deveriam atender ao público, especialmente o mais carente. Você resumiu bem, uns com doenças mentais, outros passando necessidade básica de alimento. Felizmente há outras plantas e hortas com ‘donos’ menos agressivos.

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  3. Ah, Uirá, o relato é uma verdadeira obra-prima da tragicomédia urbana! Quem diria que a busca por um mamão, algo tão simples e bucólico, poderia virar um thriller de tensão psicológica, com doses de “lei do mamão” e personagens saídos diretamente de um filme do Tarantino? Imagino a trilha sonora dramática aumentando quando o portão se abriu, revelando o temível “dono do mamoeiro” com sua vara de justiça invisível.

    Essa história toda só comprova uma coisa: estamos vivendo uma paranoia territorialista. Aparentemente, existe um código secreto que determina que as frutas que crescem em espaços públicos são, na verdade, relíquias familiares protegidas por alguma constituição mamoeira que só os iluminados conhecem. E não se atreva a questionar a autoridade sobre as “leis do Google” – afinal, se não está na internet, não é verdade, né?

    Mas, sinceramente, você teve sorte de sair de lá apenas sem o mamão, porque se continuasse com aquela vara, talvez fosse fichado por porte ilegal de instrumento de colheita. E quem diria que a maior ameaça não seria a cerca elétrica, mas sim a fúria vocal do casal guardião do reino vegetal da Asa Norte? Melhor assim, com dois mamões legítimos e sem a sombra da maldição do doce indigesto.

    Agora, fica a lição: da próxima vez, leve um advogado e um tradutor da “lei do mamão” antes de qualquer expedição frutífera. Quem sabe rola até um BO comemorativo para imortalizar essa aventura!

    É uma pena que isso tenha acontecido. Eu planto amoreiras, mexericas, e flores em área pública. Arrumo uns tocos pro pessoal se sentar e me sinto orgulhoso quando vejo que o lugar atrai pessoas e pássaros. Fico chateado quando levam as mudas inteiras, já levaram várias vezes. Mas, fazer o que? A humanidade é fascinante – as pessoas sempre buscando paz e harmonia, desde que não precisem abrir mão de estarem certas. Um abraço pra você!

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    • Fala, Graco. Legal seu comentário inspirado. Me parece que é por aí, uma ‘paranoia territorialista’, tanto quanto aos frutos, quanto a outras posses, como vaga de estacionamento. Uma disputa aguerrida pelos bens e espaços que a cidade provê, muitas vezes públicos mas apropriados de forma indevida e arrogante.

      Foi melhor mesmo ter saído sem os mamões, o doce teria ficado insosso e indigesto. Tem briga que nem vale a pena entrar. Ficou de aprendizado e para ter ciência de que há campos minados na Asa Norte..rs  

      Abração!

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