W3 para as Pessoas

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Um dia marcante. Andar pela W3 calmamente, ao som dos pássaros, é uma experiência única1. Sem o ronco dos motores podia-se ouvir até a conversa das famílias que passeavam. Pessoas de todas as idades caminhavam, pedalavam e descobriam uma cidade bem diferente.

Os diálogos que ouvi sem esforço (que delícia o silêncio na avenida!) me deixaram otimista:

“Esse é um dia histórico. Precisava vir caminhar na W3.” [Conversa entre duas moças que acabavam de se encontrar]

“Mãe, quero uma bicicleta para vir andar aqui. Na pandemia as pessoas têm que sair de bicicleta e não de carro.” [Menina com cerca de 4 anos] 

“Esse é o ponto de ônibus onde mataram o índio.” [Pai mostrava aos filhos enquanto passavam de bicicleta pela Praça do Compromisso]

Fiquei um bom tempo parado, apenas observando o movimento de pessoas. Grupos com crianças saíam das casas voltadas para a W3 e ocupavam as pistas liberadas. A badalada do sino da igreja Dom Bosco parecia um sinal de despertar. Os moradores entenderam o recado: precisamos de mais espaço para as pessoas.

E nem havia grandes atrações, apenas o asfalto liberado. Fico imaginando quando a pandemia passar e as opções de lazer e comércio aumentarem: pula-pula, aluguel de bicicletas e triciclos, água de coco e lanches, pontos de descanso e leitura, palhaços e teatro para crianças.

Enquanto observava o movimento, me vinham à mente frases da Jane Jacobs2: o balé dos pedestres e a importância dos olhos na cidade. Aliás, uma cena que presenciei parecia tirada do livro. Uma mulher com quatro crianças (de bicicleta e patinete) se aproximava de uma casa na avenida. Falou que estavam com sede e queriam um copo de água. O morador respondeu prontamente da janela e disse que levaria água e refrigerante.

O sonho de uma cidade humanizada se renovou ao caminhar e observar a avenida apropriada pelas pessoas. A ideia de que basta dar espaço (por exemplo, liberar pistas e construir calçada ou ciclovia) e as pessoas aparecem se confirmou ontem. Não vejo a hora de a pandemia passar e ver ainda mais gente.

Serei frequentador assíduo e sairei com a família da Asa Norte para me divertir na W3 Sul sem carros e explorar os espaços culturais próximos, incluindo o Cine Brasília, o espaço Renato Russo, a Biblioteca Demonstrativa e a quadra modelo (308 Sul).


1 No dia 11/6/2020 a W3 Sul abriu pela primeira vez para as pessoas, a exemplo do Eixão do Lazer. A circulação de carros e ônibus foi proibida da quadra 502 até a 516 Sul. Apenas carros de moradores da região podiam acessar a via por uma faixa delimitada por cones. A decisão do GDF de abrir a W3 para o lazer se deu pelo Decreto n° 40.877, publicado em 9/6/2020.

2 Jane Jacobs lançou o livro Morte e Vida de Grandes Cidades em 1961 com base nas observações e caminhadas. Criticou fortemente o modelo de cidade voltado ao automóvel que se consolidava nas cidades dos Estados Unidos. O livro é uma grande referência para os que pensam a cidade e lutam por ambientes humanizados. 


– VÍDEO – W3 Sul do Lazer 

– ÁLBUM – W3 Sul 

Fotos da abertura da W3 para as pessoas (11/6/2020):

https://www.facebook.com/uira.lourenco/media_set?set=a.3064274523608621&type=3

– W3 moderna e acessível

Texto com propostas para tornar a W3 humanizada:

https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/2018/09/10/w3-moderna-e-acessivel/

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