Um pedal e algumas reflexões

Texto e fotos: Uirá Lourenço

No domingo fiz um caminho fora da rotina. Fui até o parque da Água Mineral para percorrer uma trilha com amigos no rolê inaugural da Bee Bike (iniciativa que pretende levar brasilienses e turistas para vivenciar trilhas na cidade). No trajeto da Asa Norte até o parque constato o potencial desperdiçado.

O relevo plano e a distância curta favorecem o uso da bicicleta, mas o ambiente é hostil para pedestres e ciclistas. A ciclovia da W5 Norte termina de repente. No Setor Terminal Norte o jeito é seguir pelo barro e aguentar o sacolejo. Melhor do que disputar espaço com os carros.

Um pouco adiante fica o bairro Noroeste. Parece que há pistas sobrando (sem uso) para os motoristas. Aos sem-carro a situação piora ao seguir no sentido da EPIA (Estrada Parque Indústria e Abastecimento). Os únicos ciclistas que vi (dois) tinham o mesmo perfil: homem de porte atlético. E é recomendado físico de atleta para encarar o ambiente hostil e árido.

Ciclistas na região entre o final da Asa Norte e o Noroeste.

Fico imaginando se há moradores do Noroeste que saem a pé ou de bicicleta para frequentar a Água Mineral. A distância é perfeitamente caminhável e pedalável (cerca de 800 metros da quadra 311 até a entrada do parque). Tão perto, tão longe! Falta infraestrutura mínima – calçada e ciclovia – e sobra espaço – pistas e canteiros. A despeito da necessidade de infraestrutura para quem se desloca sem carro, o que se vê são mais obras voltadas para os motoristas. Os canteiros entre o Noroeste e a EPIA já foram devastados e mais pistas devem surgir em breve.

Canteiro rasgado próximo à EPIA: mais pistas em breve.

Enquanto pedalo na beira da pista, um motorista buzina de forma agressiva. Estaria ele incomodado ao me ver num veículo tão singelo e silencioso?! Chego à EPIA e surge mais um desafio: a travessia. Com carros e caminhões em alta velocidade (limite de 80 km/h) todo cuidado é pouco. Avisto uma passarela amarela meio longe e lembro que ainda deve estar em obras (após mais de 6 décadas da fundação da cidade, enfim um local de travessia por ali!). Espero uma brecha entre os velozes e furiosos e disparo com a bike.

Depois de fazer a trilha no parque e me refrescar na piscina, encarei o caminho de volta. Resolvi mudar o trajeto, segui pela EPIA. No início da tarde o calor estava grande. A ciclovia e as árvores fizeram muita falta. Estava bem equipado com um chapeuzão e camisa de manga longa com proteção contra o sol. Não encontrei outros ciclistas, apenas uma mulher andando na beira da pista.

Ambiente hostil e árido aos sem-carro.

Atravessei a EPIA com cuidado e acessei a via que passa pelo Setor Militar Urbano. Novamente zero de infraestrutura para seres desprovidos de motor. Felizmente o fluxo de carros estava pequeno por ser domingo.

Na parte que margeia o Noroeste observo como o espaço viário é bem favorável ao carro. Com os prédios novos ao fundo, o singelo ponto de ônibus se destaca. Os futuros moradores do ‘bairro ecológico’ usarão o sistema de transporte?

Bairro Noroeste (próximo ao autódromo): ponto de ônibus singelo e amplo sistema viário.

Continuo a jornada e agora passo pelo autódromo, em obras. As paredes externas estão sendo pintadas. A prometida ciclovia entre a W5 e o Eixo Monumental, que passaria próximo ao autódromo e chegaria até o Palácio do Buriti, continua no papel.

Enfim alcanço a ciclovia arborizada da W5 Norte. Com o sol ainda forte, o alívio foi grande de pedalar em caminho sombreado. Com tanto espaço livre e com tantos recursos gastos em túneis e viadutos, a capital federal desperdiça o potencial de avançar em mobilidade. Pedalar ainda será por um bom tempo um ato de coragem e resistência contra o rodoviarismo sufocante. 

5 comentários sobre “Um pedal e algumas reflexões

  1. Excelentes reflexões e relato, moro no final da Asa Norte e sonho poder ir na “Água Mineral” de bicicleta .. já tentei uma vez e desisti, voltei do meio do caminho por insegurança absoluta

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    • Pois é, Renata. Imagino o perrengue que passou. Existe espaço para delimitar calçada/ciclovia e fazer uma conexão segura entre o Parque Nacional, o Noroeste e a Asa Norte. Com as obras rodoviaristas na EPIA – pistas e acessos – deve ficar ainda pior para pedestres e ciclistas : (

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  2. Não custava nada conectar uma calçada da 900 até aquela nova passarela que passa por cima da epia. Já faz uma hora que tô tentando comentar no blog mobilize org Br. Vamos ver se aqui consigo. Vivo fazendo reclamações no participa DF. Aquele trecho que sai da 706n passa pelo CEUB Gisno depósito de carros também já cansei de mandar reclamações sobre a falta de arborização. O próprio estacionamento do CEUB é uma ilha de calor. Estacionamento ocioso, deve caber mil carros mas só vejo no máximo 12 ali pq não tem sombra nem para os carros. Se a cidade é para carros então que imponham como regra uma árvore para cada carro nos estacionamentos. Árvores vivas.

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    • Olá, Cilene. Essa região entre a Asa Norte, Noroeste e EPIA poderia/deveria ser bem servida de infraestrutura para pedestres e ciclistas. Quem passa sem carro é prejudicado. Em volta do CEUB fica bem nítido o péssimo uso do espaço urbano, amplos estacionamentos, carros estacionados irregularmente, calçadas e ciclovias deterioradas e sem continuidade. Para completar, poucas árvores e aridez.

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    • A política rodoviarista de incentivo ao carro segue firme, a todo vapor, no atual governo. Também tenho costume de fazer registros na ouvidoria do GDF de melhorias para a mobilidade ativa, mas dificilmente tomam providências. Se fosse solicitação para construir viaduto, creio que seria bem diferente!

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