A culpa do pedestre, de novo?!

Uirá Lourenço

Esta semana vi mais uma notícia de brutalidade no trânsito. Mais um motorista em alta velocidade, numa caminhonete, que atropelou uma pessoa a pé. Infelizmente, todo dia são inúmeros casos em nossas cidades, escrevi sobre a carnificina em março (link).

Dessa vez a tragédia foi em Caruaru (Pernambuco). Nas imagens veiculadas na notícia vê-se a moça correndo na calçada e, ao desviar para a beira da pista, é violentamente atingida pela caminhonete, veloz e desgovernada.

Notícia veiculada no G1, em 12/5/2026 (link).

Como de praxe, o motorista fugiu sem prestar socorro. Pelo horário do ocorrido (5h19) e pelo jeito de dirigir, pode-se supor que o motorista estava alcoolizado, voltando de balada.

Letícia Ferreira estava praticando atividade física e seu destino cruzou com o do motorista imprudente e fujão. Não bastasse todo o contexto de violência e imprudência, chamou atenção, na reportagem ao vivo do G1, a declaração do ‘especialista em trânsito’.

Ele começou falando da conduta esperada do pedestre ao usar a rua: ‘a orientação é ir sempre pelo bordo, preferencialmente no sentido contrário, para que possa visualizar os veículos. Se for à noite, utilizar roupas claras, evitar utilizar algum tipo de fone de ouvido, música alta, para que não perca essa condição sensorial de entender o que está acontecendo no trânsito ao redor desse pedestre.’

Um discurso lamentável que se reproduz na sociedade, mesmo entre repórteres, ‘especialistas’ e servidores de órgãos de trânsito. Tivemos o caso da gerente de ação educativa do Detran/DF que disse em reportagem que ‘o principal responsável pela segurança do pedestre é ele mesmo’ (link).

Não é raro, nas notícias de atropelamentos e mortes, afirmação quanto a atravessar fora da faixa ou passarela, pedalar fora da ciclovia e caminhar na pista. Em geral não se mencionam as condições da via: se o limite de velocidade é adequado, se há iluminação, se existe caminho seguro e confortável para pedestres e ciclistas.

Vale lembrar o princípio do código de trânsito: o maior protege o menor, o motorizado protege o não motorizado e todos prezam pela vida do pedestre. Está lá no artigo 29, parágrafo 2°, um mandamento desconhecido ou ignorado na pressa insana que predomina em ruas, avenidas e rodovias pelo país.

Por curiosidade, pesquisei o local onde a moça de 29 anos foi atropelada e arremessada pelo motorista fujão. Com a ajuda do street view, notei que as condições para os pedestres na avenida Agamenon Magalhães são ruins. A calçada virou estacionamento: vagas demarcadas ocupam toda a frente das lojas. E mais adiante, no sentido em que a moça corria, a calçada se estreita.

Trecho da avenida Agamenon Magalhães onde ocorreu o atropelamento (street view).

Imagino que, por reflexo e por saber que a pista dos carros é melhor para correr, Letícia desviou caminho. Nem notou que o motorista vinha em sua direção. Correndo no mesmo sentido, ou no sentido contrário (como recomendou o ‘especialista em trânsito’), teria pouca chance de evitar o choque contra o carro veloz e desgovernado.

Imagino a reação dos pais, dos parentes, ao ouvir comentários quanto à conduta da jovem, recomendações quanto a correr no sentido contrário e evitar fones de ouvido, como se tivessem sido os fatores preponderantes do ‘acidente’, em vez da velocidade excessiva e da falta de cuidado por parte do motorista.

O balanço da semana é triste. Em avenida da região metropolitana de Curitiba, dia 9 de maio, um socorrista do Samu foi atropelado enquanto atendia vítimas do trânsito, o motorista fugiu. No mesmo dia, em Palmas (TO), um senhor de 70 anos foi atropelado e morto enquanto andava de bicicleta, o motorista fugiu do local (suspeita-se que seja um médico). No dia 10 de maio uma menina de 14 anos, que andava de bicicleta, foi atropelada e ficou em estado grave em Caracaraí (Roraima) por motorista sem habilitação que fugiu sem prestar socorro. No dia 13 de maio, mais um caso de motorista que atropelou, matou e fugiu sem prestar socorro: em Goiânia um rapaz afegão de 19 anos pedalava quando foi atropelado por motorista de caminhonete alcoolizado. O jovem estava internado em estado grave e não resistiu aos ferimentos.

Não dá para aceitar as atrocidades diárias. Não se pode admitir que se continue jogando a responsabilidade pela segurança nos mais vulneráveis. Precisamos mudar o cenário sangrento nas cidades do país em que todo ano mais de 35 mil pessoas perdem a vida no trânsito e outras milhares ficam com sequelas físicas e psicológicas para o resto da vida. Este mês do Maio Amarelo é oportuno para reforçar a fiscalização, melhorar a infraestrutura e sensibilizar a população, incluindo motoristas, gestores públicos, jornalistas e especialistas em trânsito.

Um comentário sobre “A culpa do pedestre, de novo?!

  1. É possível sentir toda sua indignação nas palavras desse post. É repugnante mais uma vez a forma como tem sido noticiado todas as atrocidades nos canais de TV e redes sociais. Uma verdadeira lavagem cerebral aos espectadores que entendem “preciso me cuidar, pois a culpa vai ser minha”.

    Lembrei da menina em Santa Maria que foi atropelada na faixa por ter “soltado a mão da cuidadora”.

    Dos mesmos criadores de “estuprada pq estava de vestido curto”.

    É fato que deixamos o trânsito chegar num ponto onde o diálogo e as “fichas educativas” nada fazem senão arrancar gargalhada dos mautoristas. As multas são pura estatística a mais, que lotam as gavetas (ou HDs) da estratégia nos departamentos de trânsito.

    Sem repressão, leis duras e fiscalização pesada a barbárie continua, e os mais fracos vão pagar o pato.
    Como dizia um fictício Capitão: ainda vai morrer muito inocente.

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