Texto: Uirá Lourenço e Benny Schvasberg / Fotos: Uirá Lourenço
O novo ano começa com uma desagradável surpresa: mais um aumento na tarifa de transporte. A partir do dia 13 de janeiro o valor do ônibus (linhas de longa distância) e metrô passou para R$ 5,50. De forma rápida e sem qualquer diálogo, o governador decidiu aumentar em 10% o preço das passagens. Passaram-se apenas cinco dias entre o anúncio do possível reajuste e a nova cobrança. O aumento é válido em todas as 826 linhas de ônibus e metrô, mas o maior impacto (50 centavos) será nas de longa distância que ligam as cidades e núcleos urbanos do DF. Ou seja, os que mais gastam tempo nos trajetos têm o maior ônus.
A capital federal não é só reconhecida por seus monumentos, mas também pelo transporte coletivo precário. A longa espera nos pontos e os ônibus superlotados são marcas registradas. Outra característica é a falta de prioridade ao transporte coletivo. Pouquíssimas vias têm faixa ou corredor exclusivo para os ônibus. E o transporte por trilhos tem baixa cobertura: o metrô com apenas 42 km de extensão não atende a região norte; as prometidas linhas de VLT nunca saíram do papel.
A rodoviária do Plano Piloto sintetiza os problemas. No principal terminal de transporte do DF as escadas rolantes e os elevadores não funcionam e as filas de espera dão muitas voltas. O tráfico de drogas ocorre dia e noite e o transporte complementar (“pirata”) atende a vários destinos e é utilizado para aliviar o sofrimento na volta para casa. Recentemente, as linhas de ônibus do Entorno (cidades de Goiás) foram transferidas para a rodoviária e o caos se instalou por completo (vídeo mostra a confusão ao embarcar). Detalhe: a tarifa para o Entorno é ainda maior e sem integração.
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Rodoviária do Plano: calçadas destruídas e proteção contra o sol na área de embarque.
Com vias largas e de alta velocidade, a capital federal é bastante convidativa aos motoristas. Não é à toa que o automóvel responde por 46% dos deslocamentos, segundo a Pesquisa por Amostra de Domicílio (PDAD, 2018). Essa alta dependência é facilmente observada nos principais eixos de transporte: quase todo o espaço é ocupado pelos carros. Ao aumentar a tarifa do transporte, o governo dificulta o acesso da população, especialmente dos mais pobres e desempregados, e contribui para a migração dos usuários do transporte coletivo para o carro, moto ou transporte por aplicativo. Ou seja, a desproporção entre os meios de locomoção tende a se agravar, com concentração ainda maior do transporte individual motorizado.
O transporte motorizado individual tem grande participação nos deslocamentos. Fonte: Plano Diretor de Transporte Público sobre Trilhos (PDTT, 2018).
Brasília passa a liderar com folga o ranking das cidades com tarifa mais cara, e com serviço mais precário. A medida do governo vai na contramão da tendência Tarifa Zero: oferta de transporte gratuito para a população. Cidades do exterior e brasileiras (segundo o Mobilize, 20 cidades no país) já oferecem o serviço como forma de democratizar e incentivar o transporte coletivo.
Maricá (RJ): a maior cidade do país com tarifa zero.
Ao propor o aumento na tarifa, o GDF alega que pretende economizar R$ 161 milhões. Mas fica a dúvida: esse valor poupado será investido em transporte público coletivo? Ou será gasto em viadutos, túneis e bolsões de estacionamento, no rodoviarismo em vigor que privilegia o transporte individual motorizado?
Vale destacar a contradição no discurso governamental. Por um lado, pretende-se economizar com o sistema de ônibus e metrô. Por outro, reduz-se o IPVA dos donos de carro e moto: a renúncia de receita (o valor que o GDF deixará de arrecadar) é de R$ 213 milhões. E o que dizer dos projetos multimilionários com foco no transporte automotivo, em execução ou já anunciados (Saída Norte com custo inicial de R$ 207 milhões; túnel em Taguatinga ao custo de R$ 275 milhões e viadutos na EPIG, entre outros)? Ou seja, falta de recursos não é uma boa desculpa para aumentar a tarifa e sacrificar ainda mais os usuários de ônibus e metrô.
Se houvesse vontade política, daria para subsidiar o sistema de transporte e garantir qualidade aos usuários. Há uma possível fonte de receita para a mobilidade que vem sendo negligenciada há décadas: a cobrança pelo uso do estacionamento (zona azul). Segundo dados conservadores da Associação Comercial (ACDF), o estacionamento rotativo renderia R$ 792 milhões por ano.
Estamos em uma metrópole com uma absurda frota de quase 2 milhões de carros para uma população de cerca de 3 milhões. Para cada carro tem menos de 2 habitantes. Tanta gente sem transporte público decente e tanto carro sem gente! É lamentável que a capital federal não dê exemplo para as outras capitais e se destaque no ranking com a tarifa mais cara e o pior serviço de transporte do país. Como diziam os manifestantes no protesto: mãos ao alto, o aumento é um assalto!!!
DADOS SOBRE TRANSPORTE:
– Faixas exclusivas de ônibus: 55 km
– Metrô: 42 km
– VLT: 0 km
As linhas de VLT nunca saíram do papel.
– Valor da tarifa em outras capitais que tiveram reajuste:
Boa Vista: R$ 3,75
Maceió: R$ 4,10
Recife: R$ 3,70 (metrô)
São Paulo: R$ 4,40
Vitória: R$ 3,90
Fonte: G1 (13/1/2020)
– Cidades com Tarifa Zero: Agudos (SP), Paulínia (SP), Jaboticabal (SP), Holambra (SP), Macatuba (SP), Potirendaba (SP), Vargem Grande Paulista (SP), Maricá (RJ), Volta Redonda (RJ), Porto Real (RJ), Silva Jardim (RJ), Ivaiporã (PR), Muzambinho (MG), Itatiaiuçu (MG), Mount Carmel (MG), Campo Belo (MG), Eusebio (CE), Anicuns (GO), Pitanga (PR) e Pirapora do Bom Jesus (SP).
Fonte: Mobilize (13/1/2020)
http://www.mobilize.org.br/noticias/11896/mais-cidades-adotam-tarifa-zero-no-transporte.html
VÍDEOS:
– Protesto contra o aumento na tarifa – janeiro/2020
– Rodoviária do Plano Piloto – descaso e inacessibilidade (2019)







Muito boa avaliação. Os dados confirmam o q é afirmado. Há clara contradição na preferência ao pneu q sempre derrota o trilho. O relevo do DF favoreceria a instalação de um trem metropolitano cortando o DF e o anel metropolitano ou os 12 municípios goianos, erradamente chamados de Entorno. Ademais , o governante sempre tem preferência a obras físicas, q esvaziam os cofres sem beneficiar a massa trabalhadora . Com isso cria a base para o poder econômico apoiar a fatídica reeleição. Essa não ganhou uma linha na crítica às políticas públicas enviesadas. Mas, o artigo tem o enorme mérito de por muita luz no q acontece na mobilidade do DF e AMB. Merecem os parabéns!
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