Ciclovia Tostines

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Ao pedalar pela cidade e enfrentar velhos problemas, me pergunto: a quantidade de ciclistas é baixa em razão dos obstáculos no caminho ou os obstáculos existem porque o número de pessoas que pedalam é baixo?

Os mais novos não devem se lembrar da propaganda do biscoito, que ficou conhecida na época. O anúncio produzido na década de 80 perguntava: “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”.

Um dos principais problemas enfrentados pelos ciclistas na capital federal é a falta de continuidade no caminho. A ciclovia acaba de repente. No meu trajeto diário pela Asa Norte, a ciclovia desaparece em alguns trechos e é preciso paciência e atenção para atravessar os carros estacionados ou em circulação.  

Percurso tortuoso: ciclovia descontínua e muitos carros no caminho.

Ao longo do caminho existem muitas escolas e creches, além de um grande centro universitário. Mas o movimento de ciclistas é baixo. Na ciclovia vejo muito mais pessoas caminhando e correndo do que pedalando. Fico imaginando uma mãe que resolva testar ir de bicicleta com o filho até a escola (em vez de usar o carro). Diante dos obstáculos, não tenho certeza se ela repetirá o trajeto pedalando outras vezes.

Falta de manutenção e de iluminação é outro obstáculo. Existem pontos esburacados na ciclovia, especialmente próximo aos cruzamentos, que podem causar quedas e ferimentos. À noite o risco aumenta porque o caminho vira um breu. Pelo visto, as autoridades pensam que ciclista só se desloca de dia.

Ciclovia totalmente escura na W4 Norte.

Costumo registrar na ouvidoria do Governo do Distrito Federal os obstáculos que enfrento e deixo sugestões de melhorias. Mas dificilmente as devidas providências são tomadas. Uma das solicitações recentes – para consertar semáforo em frente a uma escola – levou um mês para ser atendida e nesse período o risco na travessia era grande. O pedido para reforma do piso e reforço na sinalização ao longo da ciclovia continua sem resposta efetiva, apesar das reiteradas solicitações.

Cena comum: ciclovia com piso danificado

Em todo o Distrito Federal existem 633 km de ciclovias e ciclofaixas, segundo a Secretaria de Mobilidade, o que coloca o DF no topo do ranking cicloviário no país, atrás apenas de São Paulo em quilometragem de vias para ciclistas. O grande desafio é atrair mais pessoas para a bicicleta, tornar a cidade mais acolhedora para os ciclistas.

Dados recentes mostram que o carro é o meio de transporte mais utilizado na área central mesmo em distâncias curtas. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD/2021), realizada pela Codeplan, no Distrito Federal 52,5% usam o automóvel para ir ao local de trabalho. Em bairros como o Sudoeste e Noroeste, o automóvel é utilizado no deslocamento para o trabalho por 89% e 96% dos moradores, respectivamente.

Que outros fatores interferem no uso da bicicleta como meio de transporte? Por que ainda temos, em geral, pouco movimento nas ciclovias? Deixe sua opinião nos comentários ; )

_________________________________

O blog tem seção própria com vários registros na ouvidoria do Governo do Distrito Federal (GDF), feitos por pessoas que caminham e pedalam pela cidade: https://brasiliaparapessoas.wordpress.com/solicitacoes-de-informacoes-e-sic/2022-2/

VÍDEOS

9 comentários sobre “Ciclovia Tostines

  1. Acredito que para reverter esta situação faz-se necessário mudar, principalmente, a consciência dos moradores, principalmente em valorizar a mobilidade ativa para percorrer pequenas distâncias… já seria um começo! Assim a cobrança por ciclovias e calçadas adequadas seria maior e quem sabe atendidas…

    Curtir

    • Maria Lúcia, é importante ter mais gente usando a infraestrutura existente (calçadas e ciclovias) e exigindo melhorias como reforma e iluminação. Assim engrossaremos o caldo por uma cidade humanizada!

      Curtir

  2. Nesse trabalho de reconhecimento das ciclovias fica evidente a falta de dialogo do poder público com o usuário de bicicleta (comunidade), deixando a desejar nos quistos eficiência das ciclovias por falta de continuidade e fluidez, para que tenhamos mais pessoas usando essas vias, as ciclovias tem que ter seus objetivos atendido! Coisa que não acontece, quantidade em quilômetros não representa sua eficiência e, colocar Brasília no topo da lista em mobilidade por bicicleta no país ainda não vejo o porque, precisamos melhorar muito sua segurança e suas ligações/integrações com outros modais, e criar pontos com bicicletários para facilitar a vida de quem usa a bicicleta para trabalhar. Aí sim poderemos considerar a colocação no topo da lista.

    Curtir

    • Boas colocações, James. Não basta só número, quantidade de ciclovias, mas também qualidade da infraestrutura. Conexão das ciclovias e ciclofaixas existentes e integração por meio de bons bicicletários (seguros e confortáveis) nos terminais de transporte são medidas importantíssimas para avançar na mobilidade.

      Curtir

  3. Penso que se faz necessária a construção efetiva da sensação de segurança, pra que assim as pessoas se sintam estimuladas a pedalar pelas ciclofaixa/ciclovia. Aí está a questão de falta de continuidade. Se estou pedalando e do nada a ciclovia acaba… me jogando pra uma via movimentada, como vou dar continuidade ao deslocamento?! Isso é falta de diálogo do gestor que planejou a construção dessa ciclovia com o cidadão que pedala (ciclista). Como alguém que nunca pedalou vai construir algo específico?! Assim, sobre a questão do Tostines: não existem tantas pessoas pedalando por falta de estrutura .

    Curtir

    • Bem colocado, Silvana. É complicado sair pra pedalar e se deparar com a descontinuidade.
      Os gestores públicos, as autoridades que lidam com trânsito precisam percorrer a cidade de bicicleta para conhecer os obstáculos e assim buscarem as melhorias necessárias.
      E também precisam ouvir os que pedalam no dia a dia e registram solicitações na ouvidoria.

      Curtir

  4. A reportagem de ontem (29/7), no DFTV 2, mostrou um local de altíssimo risco: o cruzamento da ciclovia na L4, sentido ponte JK. Alta velocidade e fluxo intenso de carros.
    A situação está assim há muitos anos: complicado não só para os ciclistas, mas também para pedestres e motoristas. Alguns motoristas até tentam dar vez para os ciclistas, mas o risco de colisão é grande por conta do fluxo motorizado intenso e veloz.
    Eis o link:
    https://g1.globo.com/df/distrito-federal/df2/video/ciclistas-reclamam-de-falta-de-respeito-dos-motoristas-na-l4-sul-10804300.ghtml
    Ciclistas reclamam de falta de respeito dos motoristas na L4 Sul

    Curtir

  5. Sem acalmamento de trânsito e melhor qualidade do pavimento e traçado das ciclovias e calçadas as pessoas normais não se animam.
    Do jeito que tá, só atende a aventureiros, arrojados ou a entusiastas da mobilidade ativa.

    Curtir

    • Tem que pensar nas pessoas ‘normais’, aquelas que usam carro e poderiam passar a usar a bike no dia a dia. Muitos deslocamentos são de curta distância (até 5 km) e poderiam perfeitamente ser feitos de bicicleta. Pontos importantes esses que você coloca. Acalmar o tráfego motorizado, com redução da velocidade e pontos elevados de travessia, ajudaria bastante. O traçado contínuo e coerente (sem tantas voltas) facilitaria também.

      Curtir

Deixar mensagem para James Soares Cancelar resposta