Marcas da Devastação Rodoviarista

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Sinto grande tristeza a cada árvore marcada que vejo. Na capital federal ‘moderna’ o retrocesso é bem evidente. Árvores são marcadas (numeradas ou pintadas com X) e depois cortadas em obras grandiosas de alargamento de pistas e construção de viadutos.

Centenas de árvores são suprimidas, de várias espécies, de pequeno e grande porte. Os tratores não perdoam. Na mais recente obra do tipo, centenas de árvores foram pintadas no canteiro central da via que passa pelo Setor Policial (as do canteiro lateral já tinham sido marcadas e cortadas). As lindas paineiras estão com os dias contados.    

Vale lembrar alguns dos muitos efeitos benéficos das árvores na cidade: sombreamento e conforto térmico, embelezamento, atração de pássaros e outros animais, manutenção de área permeável que contribui para o escoamento da água de chuva. Em tempos de mudança climática, ampliar as áreas verdes é uma das medidas colocadas em prática em cidades que levam a sério a sustentabilidade. Bosques urbanos, hortas comunitárias e transformação de estacionamentos em praças e áreas de convivência são exemplos dessa tendência mundo afora.*

Árvores que foram marcadas e cortadas no canteiro lateral da Estrada Setor Policial Militar (ESPM). Maio/2022.

Entre as árvores marcadas no Setor Policial, estão várias paineiras frondosas, como esta que floresce de forma esplêndida no canteiro central. Maio/2022 (foto à esquerda) e Março/2023 (foto à direita).

Aqui ocorre o contrário, a Cidade Parque definha graças à visão rodoviarista dos seguidos governantes. Árvores frondosas cedem espaço para o asfalto quente e impermeabilizante. Áreas verdes são engolidas pelo sedento automóvel e se tornam áreas estéreis, sem vida. Como não lembrar da grande Jane Jacobs, ativista e urbanista que combatia o modelo de cidade voltado ao carro?

A erosão das cidades pelos automóveis provoca uma série de consequências tão conhecidas que nem é necessário descrevê-las. A erosão ocorre como se fossem garfadas – primeiro, em pequenas porções, depois uma grande garfada. Por causa do congestionamento de veículos, alarga-se uma rua aqui, outra é retificada ali, uma avenida larga é transformada em via de mão única, instalam-se sistemas de sincronização de semáforos para o trânsito fluir rápido, duplicam-se pontes quando sua capacidade se esgota, abre-se uma via expressa acolá e por fim uma malha de vias expressas. Cada vez mais solo vira estacionamento, para acomodar um número sempre crescente de automóveis quando eles não estão sendo usados.  Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidades, pág. 389.

Outra área foi devastada recentemente, bem na área central tombada e de alto valor paisagístico. Entre o Parque da Cidade e o bairro Sudoeste começou a ser erguido um complexo viário (mais um!). Segundo notícia do governo, ‘a obra vai acabar com o gargalo na entrada do Sudoeste e fazer com que o trânsito flua na Epig, beneficiando diariamente cerca de 25 mil motoristas’. As novas pistas e o grande viaduto em construção serão uma barreira a mais para quem caminha e pedala. Sem contar o fluxo adicional de carros por dentro do Parque da Cidade, que resultará em mais barulho, poluição e insegurança no trânsito. Centenas de árvores foram dizimadas na região, incluindo ipês, paineiras, jacarandás, pinheiros e araucárias.

Árvores marcadas e suprimidas na entrada do bairro Sudoeste.

E outras áreas verdes na cidade vão sendo dizimadas aos poucos, convertidas em pistas e estacionamentos. Em volta do Centro de Convenções Ulisses Guimarães, a área gramada foi reduzida e surgiram mais vagas para os carros. Pra completar, em volta do estádio bilionário (sim, importante lembrar do superfaturamento e da grandiosidade questionável) palmeiras e mangueiras estão sendo cortadas. Segundo relatos de pessoas que passaram pelo local, a causa da devastação é a construção de um heliponto. Sério mesmo?! Mas o estádio já tem uma área asfaltada – cinza e estéril – gigantesca em volta. Por que suprimir as poucas árvores que restaram? 

Árvores cortadas em frente ao estádio Mané Garrincha.

O descaso com as áreas verdes é impressionante. Em nome da fluidez motorizada, parece que vale tudo. A Cidade Parque e suas Estradas Parque perdem gradativamente o atributo verde de grande valor, verdadeiro patrimônio que diferencia (ou diferenciava) a capital federal.   

_________________________

* O vídeo da Hope, grupo que produz conteúdo sobre mudanças climáticas, ilustra bem as ações de valorização das áreas verdes, adotadas em cidades modernas pelo mundo.

Para assistir, clique na imagem ou acesse o link: https://www.instagram.com/reel/Cpk4b0XNuzj/?igshid=YmMyMTA2M2Y=

9 comentários sobre “Marcas da Devastação Rodoviarista

  1. Péssimas soluções para atender a mobilidade por automóvel, a pior alternativa. Enquanto isso temos péssimo transporte público de massa, sem projetos, sem alternativas e ou com alternativas de segunda categoria

    Curtir

    • Leonardo, os projetos devastadores atendem prioritariamente (ou exclusivamente) o fluxo automotivo. As notícias governamentais destacam claramente: ‘50 mil motoristas beneficiados’, no caso do viaduto do Sudoeste. Não se consegue escapar do círculo vicioso: mais pistas e viadutos – mais carros em circulação – mais poluição – mais congestionamentos – novos alargamentos de pistas. Precisamos de soluções efetivas e inteligentes, que passam longe de incentivar o uso do carro.

      Curtir

    • Pois é, Carlos, as aves são severamente prejudicadas. Muitas acabam buscando refúgio em outros locais. Nas minhas andanças para acompanhar os projetos retrógrados sempre vejo corujas, quero-queros e anus, entre outros, desabrigados. Grande patrimônio – flora e fauna – da Cidade Parque perdido por conta do viés rodoviarista atrasado, ainda vigente.

      Curtir

  2. É interessante – e triste – notar como o automóvel engole espaços de diversas formas. Não só por conta da sede por espaços (pistas, estacionamentos e viadutos), mas também a sede por combustíveis. Notícia recente sobre o corte de árvores para construir posto de combustível ilustra o problema.
    https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2023/03/5083218-moradores-protestam-contra-a-derrubada-de-arvores-nativas-no-lago-sul.html
    Moradores protestam contra a derrubada de árvores nativas no Lago Sul

    Curtir

  3. Também fico indignado.
    Mas entendo que muitas vezes é necessário, pelo próprio progresso da cidade, afinal quem quer viver em cidade deve pagar o preço.
    Mas penso que o problema maior disso tudo é que a árvore é derrubada e não se planta outra em qualquer outro lugar da cidade.
    Se deveria ter uma forma de se tem que tirar de um lugar, plante outra em outro lugar, com prioridade de ser em um local próximo de onde foi derrubado.
    Na cidade faz muito calor pela falta de árvores….
    Seria muito bom que em cada calçada de cada casa tivesse uma árvore…. Diminuiria a incidência do sol no asfalto, no concreto, nas casas… ficaria tudo mais fresco, as chuvas não causariam tantos prejuízos, haveria sombra para se caminhar durante o dia…. A fauna estaria mais presente no nosso dia a dia. Espécies diferentes de pássaros, abelhas nativas, borboletas, micos, etc…. As crianças saberiam o que são bichos sem ter que ir ao zoológico.
    Eu me encanto por essa causa. Deveria haver incentivo para se cultivar uma árvore na calçada…. Manter as áreas permeáveis de cada lote com jardins, áreas verdes…

    Claro, tudo isso também dá manutenção, e as pessoas derrubam suas árvores pelos motivos mais ……… : cai muita folha, os passarinhos fazem cocô no carro, na calçada…. Enfim….
    Gastam uma fortuna com telhados para ter um sombra que uma árvore dá de graça e ainda mais…. Perfumes, frutos, paisagem, umidade…
    Tudo passa primeiro por uma conscientização.

    Curtir

    • Sim, Eric, mais árvores e mais bichos no ambiente urbano. A diferença é grande entre os ambientes com árvores e sombra e os locais pavimentados e sem árvores.
      Quanto ao preço que se paga, numa cidade altamente dependente do automóvel o preço é muito alto em razão da ineficiência e do grande espaço que o carro precisa (pistas e estacionamentos). Deveríamos ter planejamento sério e investimentos em transporte coletivo de qualidade, de forma a promover a migração do carro para o sistema de ônibus e metrô. Alargamentos de pistas e construção de viadutos criam ainda mais demanda para o automóvel e não resolvem os problemas históricos de mobilidade.

      Curtir

    • Teria que pressionar o governo, sensibilizar as autoridades para o retrocesso da política rodoviarista de incentivo ao automóvel. As cidades modernas abandonaram esse modelo há décadas. Não dá para entender como os gestores públicos persistem no erro, mesmo com a pauta temática em evidência: mudanças climáticas, ilhas de calor,…

      Curtir

Deixar mensagem para Eric Talamonti Cancelar resposta