Texto e fotos: Uirá Lourenço
Este mês a governadora Celina Leão anunciou que o Centro Administrativo do Distrito Federal (Centrad) será, enfim, ocupado. O complexo administrativo foi construído em Taguatinga com o objetivo de abrigar os órgãos do governo local.
Inaugurado no final de 2014, o Centrad (agora rebatizado de CAD) nunca foi ocupado. Em meio a disputas judiciais, a megaestrutura ficou abandonada ao longo de diferentes governos.
Gostei da decisão recente de levar os órgãos do GDF para Taguatinga. Já poderia ter ocorrido há mais tempo e representaria uma grande economia aos cofres públicos. O montante economizado até hoje (R$ 168 milhões por ano) – com aluguel das sedes provisórias dos órgãos – teria serventia em projetos estruturantes como o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), que até hoje não saiu do papel.
Além de tirar a concentração de órgãos públicos na área central, a ocupação do espaço pode dinamizar a região de Taguatinga, levar empregos e impulsionar o comércio. A concentração de órgãos federais e distritais no centro de Brasília contribui para o movimento pendular de trabalhadores, obrigados a fazer longos deslocamentos diários.
O centro administrativo está em localização privilegiada, ao lado da estação de metrô Centro Metropolitano. A oferta de ônibus é generosa na avenida Elmo Serejo. Há ainda um terminal rodoviário ao lado e uma ciclovia margeia a área externa do CAD.


Terminal rodoviário e estação de metrô perto do Centro Administrativo.
Apesar da boa oferta de ônibus e metrô, a notícia do governo destaca a construção de dois viadutos. Uma contradição e tanto. Por um lado, o GDF destaca a boa localização, ‘próximo a uma estação do metrô e ao terminal rodoviário da região, facilitando o acesso de servidores e cidadãos’. Mas, na mesma notícia, afirma que ‘a Secretaria de Obras já trabalha na elaboração dos projetos necessários para a construção de dois novos viadutos de acesso ao complexo’.
A proposta de construir viadutos é altamente questionável, especialmente numa região bem servida por transporte coletivo, com estação de metrô e ciclovia na porta, literalmente. Além do custo elevado (cerca de R$ 300 milhões), os viadutos reforçariam ainda mais a carrodependência no DF.
Vale lembrar que o Plano de Transporte e Mobilidade (PDTU/DF), instituído pela Lei Distrital n° 4.566/2011, e a proposta de atualização do Plano de Transporte (em elaboração, batizado de Plano Diretor de Transporte e Mobilidade Sustentável – PDTM) trazem de forma expressa o desestímulo ao transporte individual motorizado e a priorização dos modos coletivos e ativos de transporte.
A ocupação do Centro Administrativo é um motivo a mais para investir no metrô, que anda esquecido e com problemas diversos. Segundo reportagem recente (Bom Dia DF de 8 de junho), baseada em relatório da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana (CTMU) da Câmara Legislativa, em 2025 o metrô teve 20 paralisações por falha técnica, com déficit financeiro de R$ 300 milhões. Dos 32 trens disponíveis, apenas 19 funcionavam em horário de pico (em alguns dias chegaram a rodar apenas 12).
‘Construa e eles vêm’, esse é um mote conhecido entre estudiosos e ativistas da mobilidade. Construa ciclovias, linhas de BRT (sistema rápido por ônibus) e VLT para que ciclistas e mais usuários do transporte coletivo apareçam. No DF, infelizmente a lógica rodoviarista de incentivo ao automóvel segue firme: constroem-se túneis e viadutos grandiosos, e mais motoristas entopem vias, estacionamentos, canteiros e calçadas (o estacionamento irregular é uma marca registrada de Brasília).
E aí, GDF, vamos fazer valer as leis de mobilidade e incentivar os modos ativos e coletivos de transporte entre os servidores que ocuparão o CAD? A sugestão é válida para os secretários de estado e para a própria governadora, que poderiam dar exemplo e utilizar ônibus, metrô e bicicleta no dia a dia.
VÍDEO
Vídeo gravado no final de janeiro, com imagens da avenida Elmo Serejo, que passa em frente ao Centro Administrativo.

Caramba, parece zoeira dizer que vai economizar pra depois gastar dinheiro!
Concordo totalmente com essa descentralização do GDF. Minha mãe, que residia na Asa Norte, já foi servidora local e um dos medos que ela tinha era a saída do Buriti para o Centrad. Mas me recordo dela falando: se formos transferidos pra Taguatinga vou pegar o zebrinha e depois o metrô. Sem condição de todo dia ir de carro até lá.
Ela se aposentou antes, mas imagino a situação de tantos outros.
Apesar de ficar um pouco mais difícil pra quem está na parte norte vale lembrar que em termos gerais o custo não muda pro usuário já que o sistema é integrado e ele pegaria um contra fluxo pra ir até Taguá.
Ah, existe o risco de que o próximo governador (daqui a 6 meses) mude tudo de novo.
Veremos os próximos capítulos.
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