Esperança atropelada: Via da Ponte JK

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Era uma vez uma ponte tida como moderna, numa cidade moderna (ou seria apenas modernista?). O desenho da ponte é arrojado, um atrativo turístico na cidade que é patrimônio histórico mundial. Próximo ao ponto de ônibus a placa enaltece o título de patrimônio.

Mas como se chega de ônibus à ponte? Para quem vai de carro, uma maravilha: três faixas em cada sentido, sem semáforos. Para quem está sem carro, sufoco e alto risco de atropelamento.

A via tem extensão de 4,85 km, desde a L4 até a Estrada Parque Dom Bosco (EPDB), incluindo o comprimento da ponte de 1,15 km. Todo dia centenas de trabalhadores chegam de ônibus e precisam atravessar a via. Correm entre os carros em alta velocidade. Em alguns trechos ainda tem a mureta para pular. É preciso ser atleta, ter bom condicionamento físico para sobreviver.

Pedestres pulam mureta perto da Ponte JK.

Existem órgãos públicos, restaurantes, espaços culturais e clubes na região. Entre os locais que atraem trabalhadores e visitantes estão: Conselho da Justiça Federal, Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e Instituto Serzedello Corrêa / Tribunal de Contas da União (TCU).

As cenas de pessoas se lançando entre os carros velozes na frente do Conselho da Justiça Federal revelam bem a injustiça com quem usa o transporte coletivo, deixa de usar o carro e de entupir as pistas. Em vez de incentivos e boas condições, os usuários de ônibus enfrentam muitos obstáculos.

Além da falta de locais seguros de travessia, faltam calçadas e ciclovias na região. Pedestres e ciclistas dividem espaço na pista e percorrem os caminhos de rato (linhas de desejo) bem demarcados nos gramados.

Alto risco em frente ao Conselho da Justiça Federal.

Pedestres e ciclistas sem espaço na via.

Atropelamentos, colisões e mortes

São frequentes os casos de atropelamentos e mortes na via que leva até a ponte JK. Apenas entre janeiro e abril deste ano ocorreram três atropelamentos. Em novembro do ano passado, duas pessoas foram atropeladas no mesmo dia. Colisões graves também ocorrem com certa frequência, inclusive o caso Timponi em 2007, em que disputa (racha) entre motoristas causou a morte de três mulheres inocentes que estavam em outro carro. Em maio deste ano duas pessoas que estavam de moto ficaram feridas após serem atingidas por carro de motorista que fugiu sem prestar socorro.

Estive a última vez na região no dia 13 de agosto. Flagrei quase atropelamentos e eu mesmo quase virei estatística ao tentar atravessar para fazer mais registros. Comecei a correr e notei um motorista em alta velocidade. Por sorte, deu tempo de recuar e aguardar outra brecha entre os velozes e furiosos.

Algumas das muitas notícias de atropelamentos na via.

Reportagens ressaltam os riscos a cada novo atropelamento. Como pode a situação de alto risco e de completa falta de infraestrutura para quem caminha perdurar por tantas décadas?!

Canseira na ouvidoria, processos e falta de providências

Felizmente não passo com frequência pela via, afinal o risco é real de ser atropelado e morrer. Nas vezes que vou à região, observo a hostilidade motorizada e a omissão governamental. Já fiz solicitações na ouvidoria do Governo do Distrito Federal (GDF): foram pelo menos quatro pedidos de melhoria desde 2018, com imagens anexas (fotos e vídeos) para demonstrar os problemas.1

Este ano tive acesso, após alguma insistência com fundamento na Lei de Acesso à Informação, a processos que tramitam no GDF e tratam especificamente de travessia na via. Constatei que entidades já solicitaram providências do governo quanto à travessia, incluindo a Associação Médica de Brasília (AMBr) e o Sindicato de Clubes e Entidades de Classe Promotoras de Lazer e Esportes do Distrito Federal (Sinlazer) em maio de 2022.

Em setembro de 2019, um processo eletrônico passou a tramitar no GDF após envio de e-mail da TV Globo ao Departamento de Trânsito (Detran/DF) com perguntas sobre a travessia de pedestres na via. Certamente houve outras solicitações e queixas registradas em anos anteriores em que prevaleciam os processos físicos (em papel), sem acesso facilitado pelo Sistema Eletrônico de Informações (SEI).

Na análise dos processos nota-se uma queda de braços entre órgãos do governo quanto à solução a ser adotada: Detran defende passagem subterrânea e a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) sugere travessia em nível, com semáforos e redução do limite de velocidade. Cogitou-se ainda a possibilidade de travessia por cima, com passarelas. 

Ao longo do tempo outros órgãos se manifestaram sobre as possíveis soluções de travessia, incluindo Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh), Secretaria de Obras e Infraestrutura e Novacap. Em 2022 foi criado grupo de trabalho coordenado pela Secretaria de Obras e Infraestrutura, com a participação de diferentes órgãos que trataram da travessia em duas reuniões naquele ano (6/10 e 29/11), cujas atas e listas de presença estão no processo do SEI.

Vale destacar alguns itens do longo processo sobre a travessia na via da Ponte JK:

Estudo de Viabilidade (agosto/2022), feito pela Secretaria de Obras e Infraestrutura, afirma ‘não haver espaço suficiente na caixa da via’, atesta a ‘inviabilidade da implantação de travessias subterrâneas’.

A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação manifestou-se contrária à passarela elevada por conta do ‘impacto visual negativo na paisagem do setor’. Despachos e pareceres técnicos do órgão são favoráveis à travessia em nível por ‘não interferir com a preservação da escala bucólica’ e ser ‘a mais adequada do ponto de vista do pedestre’.2

A solução de travessia com faixas e semáforos foi apresentada pela Secretaria de Transporte e Mobilidade em mais de um documento, em diferentes processos.3

De forma a viabilizar a travessia em nível, com faixas e semáforos, a Semob detalha outras medidas necessárias: redução do limite de velocidade para 60 km/h, estreitamento das faixas de rolamento e criação de ilhas de espera para pedestres na parte central.

Detalhe da travessia proposta pela Semob (Despacho de 14/1/2026).

Via humanizada e segura – com faixas e semáforos

Em julho deste ano surgiu uma luz no fim do túnel. O Departamento de Trânsito (Detran/DF) reclassificou a via (de trânsito rápido para arterial) e reduziu o limite de velocidade de 80 para 60 km/h. Novas placas e totens eletrônicos foram colocados para informar o menor limite de velocidade. Uma medida importante para humanizar a via. O próximo passo seria a instalação dos semáforos (em quatro locais, próximos aos pontos de ônibus).

Quando parecia que ia melhorar, com a redução da velocidade e os semáforos prestes a ser instalados, um novo revés na novela da ponte JK. No dia 11 de agosto a governadora Celina Leão decidiu suspender a instalação dos semáforos. Segundo postagem nas redes sociais, a suspensão ocorreu após a governadora ‘ouvir inúmeras reclamações’. A notícia oficial afirma que serão feitos novos estudos técnicos. A preocupação é garantir a fluidez dos motoristas.

Postes de semáforo colocados na via, com instalação suspensa.

Na verdade, como relatado acima, vários documentos foram produzidos e estudos já foram realizados pelo governo. Após consenso entre secretarias e departamento de trânsito, o projeto para melhorar a segurança nas travessias está pronto, após pelo menos sete longos anos de idas e vindas entre órgãos do GDF.

Chega de mortes – faixas e semáforos já!

A solução é simples e barata, basta executar: faixas de travessia e semáforos próximos dos pontos de ônibus, com acionamento por botoeira. Após a decisão da governadora de suspender a instalação dos semáforos na via, houve mobilização de ativistas e cidadãos preocupados com a segurança no trânsito. Foi elaborada carta em favor da instalação de faixas de travessia e semáforos (link), entregue à Secretária de Transporte e Mobilidade, Sandra Holanda, no dia 18 de agosto.

Espero que a governadora se sensibilize. É importante que ela vá ao local, percorra a região de ônibus e a pé para perceber o alto risco e a urgência de garantir segurança a quem atravessa a via.

Em meio a tantas obras caras e grandiosas em todo o DF, viadutos que facilitam o percurso de motoristas, é emblemático que uma intervenção simples e barata voltada ao mais vulnerável no trânsito (pedestre) leve tanto tempo para sair do papel. Quantas mortes ainda serão necessárias para, enfim, termos travessias seguras na via que leva à Ponte JK?!

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1 Registrei as solicitações na ouvidoria em dezembro/2018, setembro/2019, maio/2022 e fevereiro/2026. Os pedidos e as respostas estão reunidos no blog, separados por ano. As de 2026 estão no link: https://brasiliaparapessoas.org/solicitacoes-de-informacoes-e-sic/2026-2/

2 Pareceres da Seduh sobre a travessia na via: Parecer Técnico nº 45/2019, Parecer Técnico nº 240/2022 e Parecer Técnico nº 125/2025. 

3 Entre os documentos da Semob favoráveis à travessia em nível estão um Despacho em dezembro/2019 e outro Despacho em setembro/2024.

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