W3 Norte: uma obra e muitas possibilidades

Texto e fotos: Uirá Lourenço

A W3 é uma avenida importante de Brasília, que atravessa a cidade de norte a sul, com canteiro central arborizado, faixa exclusiva de ônibus e linhas para vários destinos do Distrito Federal e dos municípios próximos de Goiás (Entorno). A parte sul da W3 passou por reforma há alguns anos e teve melhorias nas calçadas. A parte norte continua em boa parte com calçadas deterioradas e em estado visível de abandono.

O Governo do Distrito Federal (GDF) iniciou obras de requalificação da W3 Norte em agosto do ano passado. As quadras 713 a 716 Norte passaram por reforma. Podem-se ver algumas melhorias nessas quadras (calçadas reformadas e alguns pontos com travessia em nível), mas ainda muito tímidas diante do grande potencial da avenida.

Calçada renovada próximo de ponto de ônibus e travessia em nível.

Moro na Asa Norte e observo a possibilidade de a avenida se tornar mais segura e acessível, de passar por uma revitalização de verdade. Sugeri em abril, pela ouvidoria do GDF, vistoria na W3 Norte para pensar em melhorias aos pedestres, ciclistas e usuários de ônibus. A Secretaria de Obras e Infraestrutura respondeu que a proposta seria ‘encaminhada à alta gestão desta Secretaria de Obras, para conhecimento e avaliação’.

Até hoje nenhuma providência para a caminhada exploratória com técnicos do governo, momento em que se poderia acompanhar a obra e vislumbrar ações complementares. Passo com frequência pela W3 Norte – a pé, de bicicleta e de ônibus – e acredito na humanização da avenida e da cidade em geral. Assim, resolvi elaborar relato com fotos que ilustram a realidade e apontam melhorias possíveis.1 A seguir, aspectos relevantes a considerar.    

Redistribuição do espaço

É importante ir além da reforma de calçadas e promover a redistribuição do espaço. Boa parte da W3 é ocupada por pistas e estacionamentos. É possível e desejável redesenhar a avenida e retirar vagas de estacionamento. A redução na quantidade de vagas possibilitaria melhorias como instalação de ciclofaixa, alargamento da calçada e plantio de árvores, além de indiretamente incentivar o transporte coletivo.

Pensando a médio e longo prazo, associado a uma política robusta e coerente de mobilidade, o redesenho de ruas e a redução das vagas de estacionamento fazem todo o sentido.

Vale lembrar que o Plano Diretor de Transporte Urbano e Mobilidade do Distrito Federal – PDTU/DF (Lei Distrital n° 4.566/2011) tem entre os objetivos reduzir a participação do transporte motorizado individual, estimular os meios ativos (não motorizados) de transporte e priorizar o transporte coletivo. E a minuta do Plano de Transporte e Mobilidade Sustentável – PDTM (em elaboração)2 traz importantes instrumentos, como a previsão de estacionamento rotativo, ruas completas, zonas 30 e rotas acessíveis.

Além do espaço generoso para se estacionar ao longo da avenida, as calçadas – inclusive as renovadas – são invadidas diariamente pelos motoristas.

Carros ocupam espaço excessivo na W3 Norte.

Estacionamento irregular sobre calçadas reformadas da W3 Norte.

Ruas multimodais oferecem às pessoas opções seguras e atrativas de viagens a pé, em bicicleta ou de transporte coletivo, assim como em veículos motorizados.

As ruas multimodais ajudam a tornar as cidades mais eficientes. A redução de veículos privados nas ruas está diretamente ligada à diminuição de produção de gases do efeito estufa, relacionados às mudanças climáticas. Esta alteração também ajuda a aumentar o espaço para comércio e uso público e contribui para uma melhor qualidade de vida e crescimento econômico.

Guia Global de Desenho de Ruas, p. 143

Limite de Velocidade

O limite atual de velocidade é de 60 km/h, elevado para uma avenida com grande fluxo de pedestres, ciclistas e veículos motorizados. Percebe-se, especialmente nos locais sem presença de radar, que motoristas excedem o limite e avançam o sinal vermelho.

O limite poderia ser reduzido para, no máximo, 50 km/h. Vale lembrar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda esse limite para vias urbanas.4  

O Guia de Gestão de Velocidades5 traz argumentos favoráveis à redução da velocidade em avenidas, com base em Sistema Seguro e Visão Zero. Entre os exemplos práticos presentes no guia, podem-se mencionar Fortaleza (Ceará) e Bogotá (Colômbia). A capital cearense readequou o limite de 60 km/h para 50 km/h nas avenidas Leste-Oeste e Osório de Paiva, e em outras 14 vias. Em Bogotá, a readequação de 60 km/h para 50 km/h se deu em nos principais corredores.

Vias urbanas que exercem a função principal de conexão entre bairros e regiões da cidade, permitindo a circulação de pessoas e o transporte de bens em distâncias médias, podem operar com limites de 40 km/h ou 50 km/h, desde que apresentem características de infraestrutura que reduzam os riscos de sinistros graves. Entre essas características, estão o maior nível de separação entre fluxos – como canteiros centrais e faixas de serviço no passeio –, cruzamentos semaforizados e reforço da sinalização viária horizontal e vertical. Mesmo nesses casos, recomenda-se limitar a velocidade a 40 km/h sempre que houver equipamentos públicos próximos ou áreas com maior presença de pessoas.

Guia de Gestão de Velocidades, p. 38

Travessias seguras

Existem locais sem segurança para travessia de pedestres na W3 Norte. São quatro locais críticos, sem faixas de travessia nem semáforos.

Trata-se de uma demanda antiga. Solicitou-se providência do governo mais de uma vez pela ouvidoria, sem ações efetivas em resposta. Já foi elaborado mapeamento com indicação dos locais perigosos, além de fotos e vídeos que mostram a situação de quem atravessa a W3 Norte nos pontos sem faixas nem semáforos.

A despeito da melhoria parcial de calçadas na altura das quadras 513/713 Norte 515/715 Norte, os locais de travessia continuam sem a devida sinalização. Ou seja, o projeto de requalificação desconsiderou intervenções para garantir travessia segura.

Locais de travessia insegura na 506 Norte e próximo ao Setor Hospitalar Norte.

Quadra 515/516 Norte com calçada reformada, mas sem travessia segura.

Caminho seguro para os ciclistas

O GDF prevê o compartilhamento entre ciclistas e motoristas na rua que passa em frente ao comércio da W3 Norte (lado das 700), conforme projeto aprovado. No entanto, o compartilhamento não é seguro, especialmente para ciclistas com pouca experiência. O movimento de carros é grande e o ciclista fica espremido, vulnerável. Não há redutores de velocidade e alguns motoristas passam em velocidade excessiva.

É perfeitamente viável a criação de infraestrutura totalmente segregada para os ciclistas (ciclovia). O canteiro central arborizado é propício para a instalação de ciclovia ou de calçadão compartilhado entre pedestres e ciclistas. Vale destacar que se trata de importante via de ligação que deveria ter espaço contínuo, seguro, sombreado e iluminado para a mobilidade ativa. Além de atender aos ciclistas, a ciclovia atenderia aos usuários de patinete, patins, skate e monociclo.

O compartilhamento entre ciclistas e motoristas – proposto no projeto aprovado – não traz segurança mínima aos que pedalam, sem contar a descontinuidade no trajeto e a falta de sombreamento. Nos locais que já passaram por reforma, como na 713 Norte, nota-se como não houve melhoria na segurança. Os ciclistas precisam disputar espaço com os carros estacionados e em circulação, sem qualquer sinalização (vertical ou horizontal) ou redutor de velocidade.

Projeto do GDF (imagem de vídeo elaborado pela Seduh).

Ciclistas sem espaço seguro na W3 Norte.

Mais árvores e espaços de convivência

Há grande potencial de transformar a avenida W3 (Norte e Sul) num grande parque linear, com espaços propícios para caminhar e pedalar, seja por transporte ou por lazer. É importante que se construam espaços acessíveis e agradáveis, com árvores (sombra), banquinhos e outros atrativos (por exemplo, parquinho para crianças e equipamentos de ginástica).

Em cidades do Brasil projetos de requalificação em avenidas contemplaram de forma abrangente a mobilidade e a qualidade de vida, com equipamentos públicos voltados ao lazer e à convivência: banquinhos, mesas, arborização, equipamentos de ginástica, brinquedos para crianças, espaço pet, oferta de água potável e redário. O Parque Linear, em Macapá, e a Nova Duque, em Belém, são dois exemplos de transformação.

Existem muitas áreas degradadas entre as quadras da W3 Norte, que acabam virando estacionamento. Esses espaços poderiam ser transformados em praças, em locais de convivência com banquinhos e árvores. O projeto deveria incluir elementos e mobiliário com vistas ao bem-estar, criando-se locais de descanso e lazer, não apenas locais de passagem. Importante também o plantio de árvores, com finalidade não apenas estética, mas também para conforto térmico.

A 713 Norte, quadra que passou por reforma, exemplifica o potencial desperdiçado na execução do projeto de requalificação: potencial para criação de praças e espaços de lazer e convivência. A extensa área próxima ao ponto de ônibus consiste num vazio, sem atrativos nem sombra.

Espaço vazio e degradado na 713 Norte, após a obra de requalificação.

Canteiro central arborizado da W3 Norte.

Espaços revitalizados: Nova Duque em Belém e Parque Linear em Macapá.

W3 Moderna, para as Pessoas

Sonho ainda com uma W3 moderna e acessível, em que se possa pedalar de ponta a ponta em caminho seguro, contínuo e sombreado. Em que se possa estacionar a bicicleta em local adequado e caminhar sem tropeços, ou pegar um ônibus moderno e seguir por vias exclusivas. Uma avenida que te convida a passear a pé, a interagir com as pessoas, a fazer ginástica e apreciar a paisagem.

O projeto de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) ao longo da avenida W3 (com ligação ao aeroporto), anunciado inicialmente em 2009, até hoje não se concretizou e é possível que não saia do papel por entraves burocráticos. A circulação de ônibus elétricos na W3 Norte é um avanço que vale registro. Eles são mais confortáveis e silenciosos, e contam com piso baixo, que facilita o acesso de pessoas com deficiência.6

Novos ônibus elétricos em circulação na W3 Norte.

O caminho para uma W3 moderna passa por: menor limite de velocidade, menos carros em circulação, menos estacionamentos e mais praças, travessias seguras, ônibus elétricos modernos, calçadas acessíveis e ciclovia contínua.

Com ajuda da inteligência artificial ficou mais fácil imaginar essa W3 dos sonhos. Termino o texto com duas imagens criadas no intuito de ilustrar possibilidades na avenida. Espero que planejadores e autoridades se inspirem e se esforcem para termos a W3 e outras vias humanizadas.

Calçada compartilhada no canteiro central e VLT. Imagem criada com ChatGPT.

Supressão de estacionamento e criação de ciclofaixa, ChatGPT (acima). Imagem original (abaixo).

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1 Trabalho em fase de conclusão, a ser publicado e enviado ao GDF no período em que se celebra o Dia do Pedestre (8 de agosto).

2 O novo Plano de Transporte e Mobilidade está sendo elaborado por equipe do LabTrans/UFSC, com a coordenação da Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob/DF). As informações sobre a proposta estão no link: https://sistemas.df.gov.br/PDTU/PaginaInicial 

3 Guia Global de Desenho de Ruas, NACTO, 2016.

4 Fonte: https://brasil.un.org/pt-br/74276-oms-sugere-limite-de-velocidade-de-50-kmh-em-vias-urbana

5 Guia de Gestão de Velocidades, Ministério dos Transportes, 2026.

6 Novos ônibus elétricos da empresa Piracicabana passaram a rodar em julho deste ano. Algumas linhas passam pela avenida W3.

ÁLBUM

Imagens da importante avenida de Brasília (link).

Os vídeos gravados na W3 Norte mostram a situação e as possibilidades.

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