Texto: Uirá Lourenço
Este ano temos eleições para governador. O Distrito Federal é diferente de outras unidades da federação e não temos prefeito, o governador do ‘quadradinho’ acumula o papel de gestor municipal. A atual governadora é Celina Leão, vice-governadora de Ibaneis Rocha, e vai disputar a eleição. No páreo estão outros 10 candidatos.
Um dos temas importantes é a mobilidade, que tem sido recorrente nos debates promovidos. A frota motorizada no DF segue em alta, com mais de 2,1 milhões veículos registrados. Outro dado que chama atenção é a baixa extensão do metrô (42 km) e as panes que afetam a circulação dos trens (a última ocorrida no dia 24 de agosto).
O atual governo (a gestão Ibaneis/Celina foi reeleita e vai completar oito anos) se destaca pelos projetos e obras de túneis e viadutos. A notícia da Agência Brasília exemplifica o foco na fluidez motorizada: ‘Obras de mobilidade em andamento vão beneficiar 400 mil motoristas em todo o DF’1. O governo implementou o Vai de Graça em março de 2025, que consiste na gratuidade do ônibus e metrô aos domingos e feriados. Segundo o governo local, com a isenção de tarifa houve aumento de mais de 70% no uso do transporte coletivo.
Diante da importância do tema, decidi analisar as propostas dos candidatos, com base nos planos de governo apresentados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em entrevistas e debates. Considerei na análise os seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas e que têm participado de debates promovidos por empresas de jornalismo2: Arruda (PSD), Cappelli (PSB), Celina Leão (PP), Kiko Caputo (Novo), Leandro Grass (PT) e Paula Belmonte (PSDB).
Os planos de governo dos seis candidatos variam muito quanto à extensão e ao detalhamento das propostas. Do mais sucinto (Celina Leão), com 42 páginas e uma página dedicada à mobilidade; ao mais extenso (Arruda), com 183 páginas e onze páginas dedicadas à mobilidade, com mapas ilustrativos.
Arruda (PSD), Cappelli (PSB), Celina Leão (PP), Kiko Caputo (Novo), Leandro Grass (PT) e Paula Belmonte (PSDB). Fotomontagem do autor.
Tarifa Zero e Transporte Coletivo
O transporte gratuito foi proposto nos planos de governo de Celina Leão e Leandro Grass. No plano de Celina a isenção de tarifa é voltada à população de baixa renda, no plano de Grass a proposta é ampla, com implantação progressiva e gradual. Apesar de não constar no plano de governo, Paula Belmonte defendeu a tarifa zero durante a campanha.
A integração física e operacional dos ônibus entre o Distrito Federal e os municípios da área metropolitana (Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno – RIDE) está prevista em boa parte dos planos. Apenas os planos de Cappelli e de Paula Belmonte não mencionam expressamente a integração com os municípios de Goiás.
Todos os candidatos propõem projetos estruturantes, que incluem transporte rápido por ônibus (BRT), Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) e expansão do metrô. Celina propõe a expansão da linha 1 do metrô com quatro novas estações e a implantação da linha 2 para o Gama. Arruda propõe a expansão Samambaia e Ceilândia, com duas novas estações cada, metrô até o Sol Nascente e a Asa Norte, além da linha 2 até o Gama. Paula Belmonte propõe o metrô até a Asa Norte, com expansão para atender Taquari, Grande Colorado, Sobradinho, Mestre d’Armas e Planaltina.
O VLT na avenida W3 é mencionado nos planos de governo de Arruda e Leandro Grass. O trem regional de ligação entre o DF e municípios de Goiás (Águas Lindas e Luziânia) consta nos planos de Arruda, Leandro Grass e Kiko Caputo.
Ainda sobre o transporte coletivo, Paula Belmonte propõe no plano de governo autorizar o uso das faixas exclusivas de ônibus por veículos de transporte por aplicativo. Cappelli propõe o programa Até 1 Hora, que consiste em reorganizar linhas e corredores de transporte para ‘reduzir os tempos de viagem entre terminais, rodoviárias e polos de emprego e serviços’.
Novas Pistas e Viadutos
O plano de governo de Kiko Caputo propõe a construção da segunda ponte do Lago Norte e novas vias: a Saída Norte, a Saída Sul, a Estrada Parque Recanto, a Estrada Parque Brazlândia, a Estrada Parque Águas Claras e a Estrada Parque Planaltina.
A via Interbairros é proposta no plano de Arruda, novo corredor viário para ligar regiões como Samambaia, Taguatinga e Guará ao Plano Piloto. O anel viário consta nos planos de governo de Celina e Arruda, para reduzir o congestionamento na região central de Brasília (Celina) e desviar da EPIA o intenso fluxo de caminhões e veículos de carga (Arruda).
Durante a campanha, Paula Belmonte afirmou que expandirá vias e criará um anel rodoviário. Em visita ao Park Sul, Celina Leão prometeu a construção de viaduto para reduzir os engarrafamentos.3
Acessibilidade e Mobilidade Ativa
Os candidatos, em geral, foram modestos em relação aos pedestres e ciclistas. Há menções genéricas como ‘fortalecer a mobilidade ativa e a acessibilidade urbana’ (Celina), ‘garantir calçadas acessíveis e caminhos seguros para quem segue a pé’ (Paula Belmonte) e ‘ampliação da segurança das travessias de pedestres’ (Caputo).
A proposta de Arruda traz um item voltado aos pedestres, o Plano Calçada Livre, que prevê calçadas padronizadas e acessíveis nas Regiões Administrativas. O plano de Grass inclui o item Cidade Caminhável, que prevê a conexão da malha cicloviária e menciona ‘programa distrital de calçadas acessíveis com padrão único e arborização’.
Não há propostas concretas de locais ou quantidade de quilômetros de calçadas e ciclovias a construir ou reformar. Medidas de desestímulo ao automóvel e de moderação de tráfego estão ausentes dos planos dos candidatos. Há algumas menções como ‘implantação planejada de medidas de moderação de velocidade, como as Zonas 30’ (Celina) e ‘redução de velocidade e travessia elevada’ (Grass).
Rodoviarismo x Mobilidade Sustentável
Ao longo dos governos de diferentes partidos (de esquerda e de direita), temos visto a insistência no modelo rodoviarista que privilegia o automóvel. Novas pistas e complexos viários foram construídos, como a Saída Norte, o viaduto da EPIG e o Trevo de Triagem Norte (TTN). Projetos relevantes como o VLT, o BRT Norte e o Terminal da Asa Norte (TAN) ficaram na promessa.
Entre os poucos projetos estruturantes nos últimos 16 anos que saíram do papel, o BRT Sul e o corredor de ônibus da Estrada Parque Taguatinga – EPTG (que levou alguns anos para entrar em operação após a ampliação da via).
Além das propostas de cada candidato, é importante se atentar ao planejamento urbano, às leis, aos projetos existentes e ao orçamento. As leis federais e distritais são favoráveis à mobilidade sustentável, com foco nos modos coletivos e ativos (não motorizados) de transporte. E um novo plano de transporte e mobilidade do DF está em elaboração, com objetivos e instrumentos relevantes, como ruas completas, zonas 30 e redução de velocidade.4
Espera-se que o futuro governador esteja bem assessorado na mobilidade urbana, com bons projetos em busca de soluções efetivas, sem ficar preso ao rodoviarismo caro e atrasado.
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1 Agência Brasília, 17/11/2024.
2 Band, Correio Braziliense e Metrópoles promoveram debate entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal.
4 Texto no blog sobre o novo Plano: https://brasiliaparapessoas.org/2026/04/03/plano-de-mobilidade-pdtms-sera-que-o-df-enfim-avanca/

