Faixas adicionais (reversas) e imobilidade no DF

Texto e fotos: Uirá Lourenco

Faixa de protesto em local crítico de travessia na via da Ponte JK.

Acompanho a (i)mobilidade por essas bandas há muitos anos. Já são 20 anos de muita caminhada e pedal, muitas solicitações na ouvidoria e reuniões com o governo. Já vi e ouvi causos curiosos: secretário de transporte que tentou acabar com o Eixão do Lazer; resistência de pessoas letradas contra a ciclovia e contra árvores no canteiro central da Esplanada dos Ministérios (porque iriam ferir o tombamento!); obra grandiosa e cara de mobilidade sem faixa exclusiva para os ônibus (Saída Norte).

O caso da via que passa pela Ponte JK entra para o triste rol das pérolas do GDF. Num governo tão rodoviarista, focado no rei automóvel, eu nem deveria mais me surpreender com as decisões tomadas, como a de liberar faixas reversas para os motoristas no horário de pico. Na operação iniciada hoje (21 de outubro) são cinco faixas na tentativa de reduzir os congestionamentos de manhã, no sentido Jardim Botânico – Esplanada.

Os sofridos trabalhadores que se deslocam de ônibus continuarão pulando mureta e tendo que correr entre os carros para fazer a travessia. O projeto de travessias seguras, com faixas e semáforos, foi suspenso antes de os semáforos entrarem em funcionamento. A demanda por travessia segura na região é antiga e estudada há anos, mas uma canetada da governadora enterrou a proposta.

A situação para quem trabalha no Setor de Clubes era ruim e vai ficar pior. Além do fluxo intenso de carros, da falta de calçadas e de locais de travessia, agora o pedestre tem que ter atenção redobrada ao fluxo de carros no sentido contrário.

Pedestres em apuros na via que leva à Ponte JK.

Na entrevista do diretor do Departamento de Estradas de Rodagem do DF (DER-DF) ao Correio Braziliense, parece estar tudo bem, basta que os pedestres tenham atenção redobrada, olhem para os dois lados da via. Fico imaginando uma pessoa com deficiência ou mobilidade reduzida, será que terá apoio de agente de trânsito para atravessar de forma segura?

‘Ali, precisaria ter várias passarelas de pedestres. No entanto, vários problemas impedem a construção dessas passarelas. Um deles é a questão da área tombada. Essas questões precisam ser solucionadas, mas, hoje, ainda são problemas. Pedestre, se você já tem atenção, você tem que redobrá-la nesse período, principalmente de 6h às 9h, olhando para um lado e para o outro.’

Fauzi Nacfur Júnior – diretor do DER/DF

Apesar de o diretor falar em mobilidade sustentável e no Plano de Transporte (PDTU), não houve menção a incentivar o transporte coletivo: por exemplo, com faixas exclusivas, novas linhas de ônibus ou novos terminais de transporte na região que tem crescido.

A única menção na entrevista foi à faixa exclusiva de ônibus que o governo testou antes, saindo de São Sebastião, e que durou apenas dois dias! Vale lembrar que essa faixa exclusiva foi extinta justamente no Dia Mundial sem Carro do ano passado.

As sucessivas ações na via da Ponte JK (projeto de travessias com faixas e semáforos, suspensão dos semáforos e implantação das faixas reversas) deixam alguns pontos para reflexão:

a) a ausência de um órgão gestor, que coordene e centralize ações e projetos de mobilidade

A Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob/DF) deveria ser o órgão central, de coordenação, com metas claras para a mobilidade no DF. Quais os motivos de a Secretaria não assumir esse papel?

Cada órgão (Administrações Regionais, Detran, DER, Novacap, Secretaria de Obras e Infraestrutura) tem iniciativas isoladas que não seguem necessariamente o Plano de Mobilidade, não priorizam os modos ativos e coletivos de transporte (como determina a legislação).

b) a força de moradores nas reivindicações que aumentam a carrodependência

Duplicações de via e construção de complexos viários, apesar do altíssimo custo de construção e manutenção, acabam sendo priorizados pelo governo. Medidas paliativas como as faixas reversas também são acolhidas (segundo reportagem do Correio Braziliense, trata-se de ‘reivindicação antiga de moradores do Jardim Botânico e de São Sebastião’).

c) a omissão em relação aos mais vulneráveis (pedestres e ciclistas)

A via que passa pela Ponte JK simboliza bem a precariedade para quem se desloca sem carro. Ausência de calçadas e travessias seguras; ciclovias e ciclofaixas inseguras e desconectadas.

O diretor do DER informou que agentes de trânsito e viaturas serão usados para a instalação de cones e a garantia de fluidez dos motoristas. Parte da equipe e das viaturas não poderia ser utilizada para auxiliar a travessia de pedestres nos locais críticos, próximos aos pontos de ônibus?

d) a falta de ações e de projeto estruturante com foco no transporte coletivo

É nítida a morosidade em relação a medidas eficazes, com foco no transporte coletivo, como ampliação das faixas exclusivas de ônibus, linhas de BRT (sistema rápido por ônibus) e VLT (Veículo Leve sobre Trilhos).

A Ponte JK e as vias principais de acesso à ponte não poderiam contar com faixa exclusiva para agilizar o deslocamento dos passageiros? As faixas reversas não poderiam ser de uso exclusivo dos ônibus?

e) indicadores voltados à fluidez motorizada: tempo de deslocamento dos motoristas no trajeto casa-trabalho

O sucesso da operação de faixas reversas não leva em conta indicadores voltados à segurança no trânsito (por exemplo, condições de acessibilidade e de travessia) ou ao conforto dos usuários do transporte coletivo (por exemplo, tempo de espera e superlotação dos ônibus).

Sou sonhador e ainda acredito numa cidade com menos carros. Mas, conhecendo a nossa realidade e os nossos gestores, estou pronto para a próxima decisão do governo: novo viaduto, nova ponte, alargamento de pista ou estacionamento.

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