Texto e fotos: Uirá Lourenço
Este ano fizemos o tradicional pedal entre a rodoviária do Plano Piloto e a CLDF no dia 22 de setembro (Dia Mundial sem Carro). A adesão de servidores não foi grande, mas os convidados prestigiaram, incluindo quatro pessoas de monociclo e uma de patins (Linda). O Léo, que mora em Sobradinho, usou ônibus e patinete convencional (com a força do pezão).
É sempre uma alegria ter companhia no trajeto. Em dias comuns, vejo pouquíssimas pessoas nas ciclovias. Aliás, tem muito mais gente caminhando e correndo do que pedalando na ciclovia da Asa Norte. Na ciclovia do Eixo Monumental, vejo em média apenas quatro ou cinco ciclistas de manhã cedo. Uma contradição e tanto com as pistas cheias de carros.
Fico pensando nos desafios para convencer mais pessoas a usarem os modos ativos e coletivos de transporte. É intrigante como, mesmo em apenas um dia do ano, deixar o carro em casa parece um duro castigo. Algumas perguntas me vêm à cabeça:
– o sistema de ônibus em Brasília é tão ruim quanto se propaga?
– para quem mora próximo da área central (Asa Norte, Asa Sul, Sudoeste e Cruzeiro) o ônibus não seria uma opção razoável, ao menos em alguns dias da semana?
– quantos moradores da área central sabem da possibilidade de fazer a integração entre ônibus e metrô, ou pegar três ônibus, pagando uma só tarifa (R$ 5,50)?
– quantos sabem que se pode acompanhar os ônibus em tempo real por meio de aplicativos?
– quantas pessoas que moram a uma distância de até 6 km do local de trabalho já testaram caminhada, patinete ou bicicleta?
Temos uma tendência de fuga de passageiros do transporte coletivo (no DF e no país de forma geral), pessoas que migram do ônibus e metrô para o carro e a moto. Como reverter essa tendência, ou pelo menos desacelerar o ritmo de crescimento da frota automotiva (que passa de 2 milhões e 100 mil veículos registrados no Distrito Federal)?
Abrir mão do carro em Brasília é mera utopia, coisa de bicho-grilo? Ou conseguimos, com planejamento e ações envolvendo governo e sociedade, promover que mais pessoas caminhem, pedalem, usem ônibus e metrô?
É verdade que projetos importantes como o VLT e o BRT Norte até hoje não saíram do papel. Por outro lado, os ônibus elétricos novos, com piso baixo e ar-condicionado, estão rodando em quantidade razoável pela cidade. O BRT e o metrô atendem parte da região sul.
Ônibus elétrico no Eixo Monumental.
O vídeo da campanha realizada na Câmara Legislativa, pelo Dia Mundial sem Carro, mostrou o Vinicius, consultor legislativo que mora no Gama e usa diariamente o BRT para ir e voltar do trabalho. Ele aproveita o caminho para relaxar e ler. Vantagens que precisam ser ressaltadas em meio a tantos anúncios de carro (em outdoors nas ruas e nos meios de comunicação).
Apesar de falhas na manutenção e na conexão dos caminhos, contamos com uma quantidade razoável de ciclovias (mais de 700 km no DF). Para moradores da área central, não há muito que reclamar. Lembrando que há diversas opções de bicicletas, incluindo as compartilhadas (estações com as vermelhinhas) e os modelos elétricos que reduzem o esforço e facilitam os deslocamentos para quem mora mais distante ou tem alguma restrição (por exemplo, idade avançada e sobrepeso).
Ciclovia na Asa Norte.
Na semana passada acompanhei o trajeto e gravei vídeo com a Luana, que mora no final da Asa Sul e vai pedalando todo dia até o local de trabalho. Um percurso com muitas árvores que ela acha agradável, mas se considera alienígena ao perceber a baixíssima quantidade de ciclistas (vídeo do percurso).
O Alexandre Matos mora no Lago Sul e largou o carro há muitos anos. A bicicleta elétrica (e-bike) é meio de transporte e ganha-pão. Ele registrou com alegria na última semana a instalação dos postes de iluminação na ciclovia por onde passa diariamente, na região do Jardim Botânico. Ele é entusiasta da e-bike e comenta que faz o trajeto entre o Lago Sul e a rodoviária do Plano Piloto (13 km) em 25 minutos, sem estresse nem congestionamento.
Ao ver o Eixo Monumental e outras vias bem congestionadas no fim do dia, com ônibus espremidos entre os carros muitas vezes ocupados apenas pelo condutor, penso como melhorar na prática a situação, como desestimular o automóvel e facilitar o trajeto de quem opta pelo transporte público.
O foco do governo (do DF e das cidades pelo país) deveria ser: tirar carros das ruas, criar mais faixas exclusivas e corredores de ônibus, criar rotas acessíveis e arborizadas para pedestres e ciclistas, ofertar vagas seguras para ciclistas (paraciclos e bicicletários), ampliar linhas de metrô, cobrar pelo uso do estacionamento (e reverter o valor para melhorias em calçadas e ciclovias), converter áreas de estacionamento em praças.
Em vez de alargar pistas e construir mais estacionamentos, túneis e viadutos caros que estimulam ainda mais o carro, o governo deveria investir em BRT e VLT. A segurança no trânsito deveria estar entre as prioridades, com travessias seguras e redução/readequação do limite de velocidade. Ações permanentes de educação e fiscalização para coibir a imprudência motorizada: excesso de velocidade, uso de celular ao volante, consumo de álcool e outras drogas, estacionamento irregular (inclusive sobre calçadas e canteiros).


Local sem travessia segura no final da Asa Norte. Calçada invadida por carros na Asa Sul.
Nesse período que antecede as eleições, espero que os candidatos levem a sério a mobilidade e tenhamos planos e ações que incentivem as pessoas a deixarem o carro em casa (não só em setembro, num dia do ano). Que o futuro governador (ou governadora), deputados (federais e distritais) e senadores passem a usar os modos ativos e coletivos de transporte. Assim poderão saber as reais necessidades da população e buscar soluções efetivas para a mobilidade.
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VÍDEOS


