Carros elétricos e bondes: reflexão sobre os rumos na cidade

Texto e fotos: Uirá Lourenço

Foto do Eixo Monumental, modificada com auxílio do chatgpt.

Os carros elétricos estão se espalhando pela cidade. Em Brasília são facilmente vistos nas ruas. As lojas de carros elétricos também se disseminam. Na W3 Norte notei, nos últimos meses, quatro novas lojas de elétricos anunciados com preço acima de R$ 100 mil.

Fica a pergunta: a simples substituição da frota de carros a combustão por modelos elétricos significa uma mobilidade sustentável?

Quanto à emissão de gases poluentes e barulho, os elétricos são um avanço. No entanto, contribuem igualmente com congestionamentos e demandam grande espaço (pistas e estacionamentos).

Carros (elétricos ou a combustão) são ineficientes no ambiente urbano. Veículos pesados (mais de uma tonelada) que muitas vezes transportam apenas o próprio motorista. Se considerar as picapes e os modelos SUV (utilitário esportivo), de maior porte, o impacto é ainda maior.

As montadoras têm investido em carros ‘smart’ com alta tecnologia (inúmeras câmeras e dispositivos conectados), em carros autônomos e até em modelos voadores e anfíbios (que podem entrar na água). Para o setor automotivo, a cidade inteligente é cheia de carros abastecidos em tomadas elétricas.

Para quem estuda a mobilidade, vivencia a cidade sem o filtro do para-brisa e já percorreu centros urbanos de outros países, a cidade inteligente e moderna é bem diferente: com menos carros, menos pistas e estacionamentos. Uma cidade viva, com praças e uma rede de calçadas e ciclovias arborizadas.

Grande área de estacionamento na Esplanada dos Ministérios.

No Distrito Federal estima-se que o governo deixa de arrecadar R$ 939,46 milhões, por conta da isenção de imposto (IPVA) aos carros elétricos1. Fico imaginando as inúmeras melhorias na mobilidade possíveis com esse valor: das mais baratas (reforma de calçadas e pintura de faixas de travessia) às mais custosas (BRT e metrô). O valor poderia ainda bancar a extensão da Tarifa Zero, que hoje só ocorre aos domingos e feriados.

Quais os incentivos ao trabalhador que pega ônibus e metrô, deixa de usar o carro, e leva mais de duas horas nos deslocamentos diários?

Cadê as vantagens a quem pedala, deixa de poluir e ocupar vias e estacionamentos, encara caminhos nem sempre contínuos e muitas vezes precisa improvisar na hora de prender a bicicleta?

Em vez de vias entupidas de carros elétricos, um sistema integrado com ônibus elétricos, bondes e metrô tornaria a cidade muito melhor. Para completar, bicicletas compartilhadas (convencionais e elétricas) gratuitas ou a preços módicos. Pensar mais no coletivo, em vez de incentivar supermáquinas caras.

Amsterdã e suas ruas com poucos carros, baixo limite de velocidade, calçadas acessíveis, ônibus silenciosos, tram (bonde elétrico que roda a cidade toda) e ciclovias congestionadas exemplifica bem o modelo sustentável.

Rua de Amsterdã: muitas bicicletas e tram (bonde moderno).

O futuro das cidades está mais ligado ao bondinho e ao trem do que a carros possantes e com alta tecnologia a bordo. Lamentavelmente o Brasil abandonou os trilhos (os trens que ligavam as cidades ficaram na história), os metrôs e Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) nas grandes cidades ainda são exceção.

Enquanto isso, as fabricantes de carros elétricos desembarcam com força, ávidas por mais compradores. As chinesas GWM, BYD, Geely e Changan já se instalaram no país.

Propaganda recente do jeep avenger anuncia isenção de IPVA e de rodízio (na cidade de São Paulo)2. O sujeito gasta mais de R$ 100 mil para rodar pela cidade e não pode custear o imposto, que poderia ser revertido em melhorias na mobilidade? Pode rodar sem restrições, qualquer dia da semana, e congestionar as ruas.

Carros elétricos: isenção de rodízio e IPVA, modelo que custa cerca de R$ 500 mil.

Os rumos da mobilidade dependem de decisões governamentais. Nossas autoridades apostam em carros elétricos, incentivam a fabricação e a compra dos novos modelos, assistem de camarote à perda de passageiros do transporte coletivo nas grandes cidades. E assim o país continua fora dos trilhos e submisso aos interesses do setor automotivo.

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1 Notícia de julho deste ano:

https://www.metropoles.com/distrito-federal/puxado-por-eletricos-isencao-de-ipva-chega-a-quase-r-1-bilhao-no-df

Puxada por elétricos, isenção de IPVA chega a quase R$ 1 bilhão no DF

2 Vários estados concedem isenção de IPVA para carros elétricos ou cobram alíquota reduzida. Além do DF, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia e Minas Gerais são alguns dos estados que isentam totalmente do imposto.

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