De bicicleta em Brasília

Nesta Semana da Mobilidade, em que se celebra o Dia Mundial sem Carro (22/9), Luana conta sobre a experiência de pedalar no dia a dia.

Texto: Luana Bessa Cavalcante | Fotos: Luana Bessa Cavalcante e Uirá Lourenço

Vivo em Brasília há um ano e costumo brincar que estar bem pertinho de algum local aqui quer dizer distar mais ou menos dois quilômetros do ponto de interesse. Não é a primeira vez que habito uma cidade com características de espraiamento: como estudante em Brisbane, na Austrália, meu raio de tolerância pedonal teve de ser flexibilizado a uma distância de três a quatro quilômetros.

Lá também os ônibus não chegavam perto dos meus pontos de destino, o bilhete era caro e não havia integração efetiva entre modais de transporte pelos idos de 2015. Brisbane e Brasília, apesar de muito diferentes, são cidades onde ser pedestre e ciclista requer tempo e paciência, ao passo que para o motorista a acessibilidade é facilitada: há grande oferta de vagas de estacionamento gratuito, não há trânsito intenso fora das horas de pico, nem semáforos a cada esquina.

Em Fortaleza, onde cresci, dez quilômetros são suficientes para cruzarmos a cidade, as ruas são estreitas e os comércios e serviços estão bem distribuídos, sobretudo nos bairros mais verticalizados. Não é para menos que essa é a capital mais densa do Brasil. Não há arranha-céus, mas prédios entre 20 e 30 pavimentos dão contorno à silhueta das “regionais” que margeiam a costa, e adentram pelos bairros da Parangaba e de Messejana.

Além disso, em Fortaleza a maior parte da população está a menos de 500 metros de uma estação de bicicletas compartilhadas e andar de ônibus ou de transporte alternativo também se tornou mais fácil com os aplicativos de celular. Não quer dizer que seja um paraíso; como pedestre ou ciclista, sofremos com o calor, com calçadas e ciclovias irregulares e com a insegurança, mas as distâncias são muito mais curtas e os trajetos mais flexíveis.

Em Brasília, uso a bicicleta nos finais de semana e quando me desloco de casa para o trabalho. No percurso entre a SQS 315 e a SPSE 702, na Asa Sul, não há barreiras intransponíveis, não preciso atravessar rodovias com limite de velocidade de 80 km por hora, nem preciso enfrentar as tenebrosas travessias subterrâneas do Eixão. A maior parte da pista que utilizo, a qual margeia a W2, é arborizada e muito segura, não há grandes desvios e a pavimentação está em bom estado na maior parte do percurso.

Pedalar às 7h30 sob as árvores é bastante agradável, mas tenho que desmontar da bicicleta e virar pedestre na maior parte das seis comerciais que atravesso. Às 17h30 até consigo pegar carona com os transeuntes que param o trânsito nas faixas de pedestre, pois os condutores não estão acostumados a dar preferência aos ciclistas.

Caminhos não sinalizados no interior das superquadras são margeados por gramados e largos canteiros.

Os trajetos são interrompidos por vias coletoras, com maior fluxo de veículos e travessias apenas para pedestres.

Sinto que as bicicletas ainda são veículos um tanto alienígena em Brasília, menos integrados ao cotidiano da cidade, e que o ciclismo está mais associado à prática esportiva que ao transporte urbano. Quase nunca cruzo com pessoas que portam roupas sociais como eu, também não vejo crianças nem adolescentes nem idosos pilotando bicicletas.  Homens jovens com mochilas de entrega ou aqueles que portam collants e equipamentos de performance parecem se encaixar melhor no perfil dos ciclistas daqui. São raras as mulheres sobre duas rodas, mas, na porta das escolas, elas marcam presença esperando em pé, ao lado dos pequenos, pela abertura dos portões.

Há muitas acompanhantes de idosos no final da tarde, que passeiam ao longo das faixas de edifícios residenciais. Também nesses horários, há vendedores ambulantes e quiosques onde alguns grupos se reúnem. Não é a paisagem fria que me disseram que eu encontraria na capital, mas pouco me estimula a explorar a cidade, sobretudo quando nos deparamos com a surpresa das ciclovias interrompidas ou com a ausência de bicicletários.

Ao lado dos edifícios residenciais há maior movimento de pedestres; ainda assim, o uso compartilhado das calçadas é adequado a qualquer hora do dia.

As barreiras e a falta de conectividade das ciclovias do plano piloto me desencorajam a experimentar novos caminhos. Ainda que as linhas retas sejam mais previsíveis e proporcionem melhor visibilidade, a falta de esquinas e as distâncias alongadas conferem um ritmo bem diferente ao caminhar e ao pedalar. Aqui as temperaturas são mais amenas e se pedala com muito conforto em alguns trechos, mas é preciso encarar percursos mais longos, conhecer os trajetos com antecedência, checar os pontos de parada e estar preparado para virar pedestre em muitos momentos.

É preciso ter paciência para não se arriscar e certa experiência para detectar condutores apressados, que não querem esperar. Enquanto não houver circuitos de ciclovias conectados e travessias adequadas, deslocar-se de bicicleta em Brasília exigirá níveis de tolerância inatingíveis para maior parte das pessoas.

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Luana é de Fortaleza (CE), já morou em outras cidades e se mudou para Brasília. Tem utilizado a bicicleta no trajeto de cerca de 5 km entre a residência e o trabalho.

Cenas do trajeto feito por Luana diariamente e conversa ao final sobre as impressões da cidade.

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